domingo, 8 de novembro de 2009

Como adaptar a própria vida para o cinema!



Adaptação (Adaptation) - 2002
EUA





Diretor - Spike Jonze
Elenco - Nicholas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Tilda Swinton


Sites: IMDB / Site Oficial


Roteirista famoso sofre um bloqueio ao tentar adaptar para o cinema livro de escritora famosa. Para complicar a situação, ele recebe a visita de seu irmão gêmeo que está fazendo um curso para roteirista de cinema e que se propõe a ajudá-lo a terminar o trabalho.


Por que gostar desse filme?


Adaptação é um dos roteiros mais inteligentes que já vi no cinema. E deveria ser mesmo, já que o filme mostra o trabalho de um roteirista em plena crise de criatividade, mas o que o torna inesquecível é a forma como essa história é contada.
O roteirista Charlie Kaufman (interpretado esplendidamente por Nicholas Cage), que goza de certo prestígio no meio cinematográfico, recebe a incumbência de adaptar para o cinema um livro da escritora Susan Orlean (interpretada, como sempre, de maneira muito eficiente por Meryl Streep). O livro em questão, The Orchid Thief, trata da investigação da autora sobre a prisão de John Laroche (interpretado por Chris Cooper) por furto de orquídeas em uma reserva estadual (em especial a raríssima Orquídea Fantasma).
Charlie é uma pessoa muito insegura e se sente incapaz de criar esse roteiro, principalmente porque boa parte do livro trata unicamente de flores. Surge o bloqueio e o roteiro não sai do lugar.
Para piorar a situação, Charlie recebe em casa o seu irmão gêmeo Donald (também vivido por Cage) que está participando de um curso para criação de roteiros de cinema.
O conflito de opiniões é enorme. Enquanto Charlie deseja criar roteiros mais introspectivos, que reflitam a vida das pessoas e que evitem a todo custo cenas com sexo, violência e perseguições (como pedem as platéias de hoje em dia), Donald cria seus roteiros exatamente da forma que Charlie procura evitar (apesar que as idéias de roteiro dele são muito engraçadas).
O pior de tudo é que os roteiros de Donald são elogiados pelo seu professor e um deles foi aceito por um produtor para ser filmado.
O tempo passa e Charlie tem várias idéias para o seu roteiro, mas não consegue ter pelo menos um "fio da meada" para o filme. Então, Donald se propõe a ajudar o irmão a finalizar o seu roteiro.
Pelo apresentado até aqui, o filme não parece nada muito interessante e, pior, parece se encaminhar para aquele "água com açúcar" tradicional com irmãos se reconciliando, filosofia sobre aceitar as idéias dos outros e por aí vai.
Puro engano, pois apesar disso acabar acontecendo, a maneira como acontece é inusitada.
Para melhorar a compreensão do caminho no qual o filme se envereda, veja esses pequenos detalhes:

  • Charlie Kaufman existe na vida real. Também é roteirista de cinema (do filme Quero Ser John Malkovich, por exemplo) e por uma incrível coincidência é o roteirista desse filme! Isso mesmo, o roteiro de Adaptação é de Charlie Kaufman. O real. Ou seria o fictício?!!?
  • A escritora Susan Orlean e John Laroche (retratado no livro dela) também existem na vida real. Outro detalhe: o livro que está sendo adaptado também existe!
  • Como isso em mente, parece que o filme é uma adaptação da biografia dos personagens, ou pelo menos, que o filme apresenta uma passagem da vida deles. Nada disso! O filme é uma ficção em todos os aspectos (lembrem é uma adaptação).
  • Agora o melhor de tudo: Charlie Kaufman (o real) não tem nenhum irmão gêmeo, mas Donald Kaufman aparece nos créditos de Adaptação como co-roteirista do filme!! (me parece algo meio esquizofrênico)




O que estamos assistindo afinal?


O nível de compreensão mais óbvio é que estamos vendo um filme (real, pois estamos no mundo real assistindo o filme) sobre um roteirista que está escrevendo um roteiro para um filme (fictício, dentro da história do filme real). Mas o que torna isso interessante é o outro nível de compreensão que podemos ter do filme.
Na verdade, o roteiro que está sendo escrito dentro da história (ficção) é o roteiro do próprio filme que estamos assistindo (o filme real)! É sensacional...
Isso é demonstrado na melhor cena do filme, que já classifico como uma daquelas antológicas da história do cinema. Charlie narra em um gravador uma cena para o seu filme (fictício), mas a cena que ele descreve é exatamente a cena que estamos assistindo no momento!! É uma mistura de real e fictício mostrada de uma maneira absolutamente criativa. Podem dizer o que quiserem, mas é coisa de gênio.
É como se estivéssemos dentro da cabeça do artista, presenciando exatamente a gênese da obra de arte.


Adaptação


Não bastasse esse aspecto do filme, o autor leva essa idéia de observação da gênese da criação mais adiante.
A partir do momento no qual Donald começa a ajudar Charlie na criação do roteiro, o filme que  assistimos simplesmente enlouquece. De uma hora para outra o comportamento dos personagens muda completamente, o ritmo do filme muda e o filme, de comédia misturada com drama, muda para um thriller, com crimes, perseguições e tudo mais.
Começa então, uma trama regada a drogas, sexo e violência, onde Susan e John estão envolvidos em atividades ilícitas e que culmina em uma perseguição em um pântano com algumas mortes.
Ou seja, a partir desse momento, o roteiro que estamos assistindo não é mais de Charlie, mas sim de Donald. É uma "aula" sobre  como uma adaptação cinematográfica pode ser feita e sobre a eterna luta entre o ser "popular" ou "autoral".
Acabamos vendo dois filmes dentro de um só.
Outro detalhe curioso é que a maioria dos personagens existe na vida real e que não fizeram nada do que aparece no filme! Tudo, como o próprio nome do filme denuncia, é uma adaptação sobre uma história original (a vida dessas pessoas).
É preciso bastante ousadia para tomar personagens da vida real, misturá-los em uma história que mostra uma vida "paralela" dessas pessoas. E essa ousadia é ainda maior se observarmos a forma como o roteirista retrata a si mesmo neste filme.
Esse é um daqueles filmes no qual o espectador deve aceitar as regras do "jogo" propostas pelo filme e entrar nele de cabeça. Aqueles que entrarem no "jogo" vão se deslumbrar com um dos filmes mais criativos de todos os tempos.
É um filme para quem gosta de cinema e para quem gosta de ser desafiado a pensar no que está vendo. Veja e reveja esse filme, porque a cada nova visão ele se apresenta mais interessante.


Dica: se você gostou desse filme assista Sinédoque - Nova York, escrito e dirigido por Charlie Kaufman (o real). Ele consegue ir mais fundo ainda no conceito de apresentar o processo de criação de uma obra de arte. É outro filme fantástico que ainda vou comentar aqui.


Cenas Inesquecíveis

  • Charlie narra em um gravador exatamente a cena que estamos vendo na tela, nos informando que, na verdade, estamos assistindo ao roteiro dele (personagem). Desde já, essa cena merece entrar para o conjunto de cenas memoráveis do cinema de todos os tempos.
  • A cena de perseguição no pântano, ápice da espiral de loucura que o filme se transforma depois que Donald assume o "roteiro" do filme. Essa cena culmina com a morte de dois personagens principais, entre eles o próprio Donald!
Lord of the Reel