Afogando em Números (Drowning by Numbers) - 1988
Inglaterra / Holanda
Diretor - Peter Greenaway
Elenco - Joan Plowright, Juliet Stevenson, Joely Richardson, Bernard Hill, Jason Edwards, Bryan Pringle
Site: IMDB
Três mulheres - mãe, filha e neta - descontentes com os seus casamentos afogam os seus respectivos maridos, mas tem os seus crimes encobertos por um magistrado apaixonado pelas três mulheres. Mas, os crimes são descobertos e a única saída para os quatro é fugir em um bote, mas um deles não sabe nadar ...
Por que gostar desse filme?
Os grandes diretores imprimem suas "marcas" nos seus filmes, tornando-os inconfundíveis. Com certeza Peter Greenaway é um deles e Afogando em Números é um excelente exemplo disso.
A "marca" Peter Greenaway, algumas vezes, torna o filme um tanto difícil de acompanhar, mas é inegável que ele tem muito estilo. Não sou daqueles fãs de toda a obra desse diretor, mas alguns deles posso classificar como primorosos e entram, fácil, fácil, na minha lista de melhores que já assisti.
Greenaway além de cineasta é artista plástico e procura trazer para os seus filmes a experiência dele nessa arte. Alguns filmes funcionam como obras de vídeo-arte, principalmente na sua fase mais atual, onde ele procura apresentar uma mescla de meios para apresentar a mensagem do filme. Realmente, algumas vezes isso leva à saturação de símbolos, mas em outras ele acerta a mão e temos filmes muito interessantes.
Mesmo assim, nem sempre os símbolos são fáceis de decodificar.
Afogando em Números apresenta alguns elementos que podem ser encontrados em vários filmes do diretor:
- Uso intensivo do jogo entre luz e sombra;
- Composição das cenas como se fossem quadros (observe nesse filme a abundância de detalhes que podem ser vistos na maioria das cenas, é possível "pausar" o filme e ficar analisando a cena);
- A magistral trilha sonora de Michael Nyman, colaborador constante do diretor;
- A apresentação de corpos nús com uma naturalidade impressionante. Realmente o diretor não apresenta nenhum receio em apresentar as pessoas nuas em seus filmes. Não é exploração do nu de forma apelativa, mas sim, de nos fazer confrontar com algo absolutamente natural: por baixo de nossas roupas, todos estamos nús;
- A recorrência de cenas apresentando matéria em decomposição. Podem ser frutas, animais mortos ou mesmo seres humanos. É a decomposição da sociedade.
Por tudo isso é possível perceber que entrar no mundo dos filmes de Greenaway não é uma tarefa fácil. É preciso estar preparado para saborear um prato requintado, mas com sabor diferente do que normalmente experimentamos. Concordo que não é saboroso sempre, mas com certeza é bem diferente. Sempre é uma experiência muito interessante.
Três Mulheres
O filme apresenta três gerações de mulheres de uma mesma família que possuem o mesmo nome (Cissie Colpitts), que compartilham o mesmo descontentamento com os seus casamentos e que lançam mão do mesmo expediente para resolver os seus problemas conjugais: o assassinato.
Em momento diferentes do enredo, elas matam seus maridos afogados (na banheira, na piscina e no mar).
Para que não sejam apanhadas pelas autoridades, se aproveitam da paixão que o magistrado local (que investiga os crimes) nutre pelas três e prometem favores sexuais em troca da impunidade. Promessas essas, que nunca são cumpridas!
Os homens desse filme são completamente subjugados por essas três mulheres. São pessoas sem nenhum brilho, completamente estúpidos. Quase somos levados a crer que mereceram o seu destino e quase começamos a torcer para que elas escapem impunes! Talvez a única exceção seja o magistrado. Não que seja brilhante, mas pelo menos conseguimos torcer por um destino melhor para ele...
Curiosidade: no papel do magistrado temos, bem mais novo, o ator Bernard Hill, que pode ser visto como o rei Theoden de O Senhor dos Anéis.
O magistrado encobre as evidências que incriminam as mulheres, mas sua situação vai se complicando cada vez mais, perante os moradores da região. Quando são desmascarados, o que acontece após um dos tantos jogos que são apresentados ao longo do filme, os quatro fogem para o mar, a bordo de um barco a remos. Mas o magistrado não sabe nadar ....
Jogos e mais Jogos
O aspecto mais interessante do filme é a questão dos jogos. Acredito mesmo, que o filme todo possa ser visto como um grande jogo, no qual somos convidados a assistir e até a participar.
Em primeiro lugar é entrar no jogo do cineasta e apreciar o apuro visual com que são apresentadas as cenas. Como já disse, a composição das cenas é algo realmente incrível, com vários detalhes a serem observados.
Em segundo lugar, existem os jogos que são apresentados no filme pelo filho do magistrado. Smut é fanático por jogos e vai nos apresentando os jogos mais estranhos que o cinema já mostrou (e acho que fora dele também).
Esses jogos apresentam ecos com o que acontece no enredo, em alguns casos, com papel fundamental para o enredo, como no caso dos dois jogos finais: o cabo de guerra entre os moradores da região e os "suspeitos" e o jogo final de Smut. Jogo final mesmo.
Além disso, o diretor nos convida a participar de um jogo também. Isso mesmo, nós espectadores também podemos jogar!
Ao longo do filme vão sendo apresentados números de 1 até 100 (na sequência). Mas esses números são apresentados nos lugares mais inusitados, inclusive em peixes que foram pescados!
Com o passar do tempo, começamos a nos preocupar em encontrar onde o número aparecerá. É muito interessante.
Com isso, o espectador vai acompanhando o desenvolvimento da história e percebendo quando ela está rumando para o final. Obviamente com o número 100 na tela e obviamente em uma cena que envolve, as três Cissies, o magistrado (que não sabe nadar), muita água, um barco com o número 100 estampado no casco e uma morte...
O filme mostra que na vida, como em um jogo, nem sempre quem merece ganhar é aquele que ganha. Pior, na vida normalmente os inocentes são aqueles que perdem. E nesse filme é exatamente isso que acontece.
Curiosidade: Na época do lançamento do filme, li em uma revista italiana que um dos números da sequência de 1 até 100 não é mostrado. Não me lembro qual é.
Vale a pena entrar nesses jogos e assistir a esse filme incrível. É um filme para ser, principalmente, visto e apreciado, como toda boa obra de arte visual.
Pena que ainda não tenha sido lançado no mercado de DVD.
Cenas Inesquecíveis
- A princípio, qualquer cena do filme, pela qualidade da composição visual das mesmas. É um filme belíssimo, mesmo quando mostra morte e destruição.
- A menina pulando corda e contando até cem (prenunciando o jogo com o espectador). Além de contar, a cada pulo ela diz o nome de uma estrela! O mais incrível é que não se percebem cortes nessa cena!!
- O jogo do cabo de guerra quase no final do filme. É o "julgamento" dos suspeitos. O "sentença" depende do resultado do jogo.
- O último jogo (literalmente) apresentado e jogado por Smut. Se não tiver nome, poderíamos chamar de "Jogo do Enforcado". Para se ter uma idéia, observe a descrição que Smut faz desse jogo: "O objetivo desse jogo é saltar com uma corda no pescoço de um local suficientemente alto, para enforcar-se ao cair. O objetivo desse jogo é punir aqueles que causaram grande infelicidade com suas ações egoístas. Esse é o melhor jogo de todos, porque o vencedor é também o perdedor, e a decisão do juiz não admite apelação." Uau ... precisa dizer mais alguma coisa?
Lord of the Reel








