quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Fé e Espiritualidade para Salvar o Mundo



Nostalgia (Nostalghia)- 1983
URSS / Itália




Diretor: Andrei Tarkovsky
Elenco: Oleg Yankovskiy, Erland Josephson, Domiziana Giordano


Site: IMDB


Poeta russo empreende viagem pela Itália, junto com sua intérprete italiana, atrás de informações sobre compositor, também russo, que viajou e morreu naquele país. A causa da morte: nostalgia. Eles se hospedam em um hotel/balneário onde o poeta conhece um empregado, Domenico, considerado louco pelas pessoas, porque alguns anos antes, trancou-se com a família em uma casa, para evitar que eles tivessem contato com os males do mundo e para esperar o fim do mundo.
O poeta se identifica, cada vez mais, com a história do empregado e passa a achar que ele não está errado em suas crenças apocalípticas.


Por que gostar desse filme?


Nostalgia não é um filme fácil de ser assistido. O ritmo é lento, as imagens contemplativas, a fotografia (em boa parte do filme) é quase sem cor, o enredo não é fácil e algumas cenas são bastante enigmáticas. Realmente não é o filme para aqueles que esperam diversão fácil.
Mas, para aqueles que querem mergulhar nessa obra-prima não sairão decepcionados (como praticamente em todos os filmes do diretor).
Tarkovsky divide o roteiro do filme com outro monstro sagrado dos roteiristas, o italiano Tonino Guerra.
Comecemos por alguns aspectos "técnicos" do filme, mas que apresentam relação direta com o desenvolvimento do enredo.


Beleza do "quase preto-e-branco"





Nostalgia é com certeza um dos filmes mais bonitos que já assisti (se não for o mais bonito). Assistir a esse filme causa um grande impacto. Quando o filme termina é preciso tomar fôlego novamente para raciocinar sobre o que foi apresentado.
É impressionante perceber que dá para assistir ao filme sem legenda nenhuma e mesmo assim desfrutar das maravilhosas imagens, mesmo sem compreender nenhum dos diálogos. Óbvio que isso é um grande desperdício, mas o filme é bonito mesmo.
A fotografia do filme vai desde cores naturais (nas cenas iniciais da igreja e nas cenas do centro da cidade) até um incrivelmente belo preto-e-branco (nas memórias do poeta sobre a sua família), passando por um, digamos "quase preto-e-branco" maravilhoso (principalmente dentro do hotel, mostrando o estado de espírito do poeta).
O mais interessante é que a utilização dessa fotografia está completamente integrada ao enredo, mostrando o estado de espírito do personagem. Ele nem está completamente integrado ao tempo atual (Itália colorida) e nem consegue esquecer a família (passado em preto-e-branco). Daí essa cor sem colorido.
Nota máxima para Giuseppe Lanci, o diretor de fotografia do filme.


Onde o diretor arrumou essas locações?


Outro aspecto brilhante em Nostalgia é a escolha das locações. Elas foram simplesmente brilhantes.
Começando pelo hotel onde o poeta se hospeda. É uma mistura de hotel com balneário (com inúmeras piscinas termais). Deve ser algo da época do Império Romano. Em um primeiro momento, parece um local normal, mas com o tempo vai adquirindo formas de um lugar um tanto fantasmagórico.
Contribui para isso, a escolha do diretor em praticamente não mostrar mais ninguém, a não ser o poeta, sua intérprete e o empregado (praticamente todo o filme se desenvolve em torno desses três personagens). Nas cenas próximas às piscinas existe uma névoa sobre as pessoas, apenas ouvimos seus comentários e praticamente nada vemos. É sensacional, dá a impressão de que o personagem está vivendo em um purgatório.
A casa de Domenico (o empregado) é outro achado. Parece alguma coisa abandonada, onde entra água por todos os lados. É outro lugar fora do nosso mundo, algo sobrenatural, onde somente alguém com as convicções de Domenico poderiam mesmo morar.





Outra cena que chama a atenção para a locação é aquela onde o poeta conversa com uma criança (veja a imagem acima). Afinal de contas, que raio de lugar era aquele? E pior, não é cenográfico, é uma locação real! É um lugar alagado, cheio de plantas submersas. Incrível.
Novamente os aspectos técnicos agem em conformidade com o desenvolvimento do enredo. O poeta vive em uma espécie de limbo pessoal, sem muita motivação para continuar a pesquisa e sem muita oportunidade para voltar para casa.
Em especial, a cena do local alagado é emblemática. O poeta está atolado naquele lugar e não consegue nem ir para frente e nem para trás. A água é estagnada, como a vida do personagem.


A nostalgia do autor





Observando o filme pelo seu enredo, podemos perceber duas preocupações básicas dos autores. A primeira, demonstrar o estado de espírito do próprio diretor do filme, a sua nostalgia e, em segundo lugar, mais uma vez na obra de Tarkovsky, mostrar a espiritualidade e a fé do homem.
Vale a pena observar como esses dois aspectos vão sendo apresentados pelo filme. Inicialmente, temos o aspecto da nostalgia. Com o passar do tempo, a questão da espiritualidade vai surgindo e vai tomando conta do enredo, principalmente porque a nostalgia do personagem o deixa preparado para a mudança espiritual que se opera nele. E finalmente, a espiritualidade "cura" a nostalgia do poeta.
O enredo apresenta dois personagens padecendo do mesmo mal: a nostalgia.
Primeiramente, temos o compositor russo do século 19, exilado por algum motivo na Itália e que morre lá, segundo alguns depoimentos, de nostalgia (saudades do seu país e de sua gente).
Em segundo lugar temos o poeta (personagem principal do filme, vivido por Oleg Yankovskiy) que também está como que exilado na Itália, pesquisando a vida do compositor conterrâneo e que demonstra uma saudade enorme de sua família, por intermédio de suas memórias em preto-e-branco.
Essa nostalgia é amplificada pelo assédio que ele sofre de Eugenia, sua intérprete italiana (vivida por Domiziana Giordano).
Esses dois personagens nos apresentam a sua nostalgia de uma forma até que clara, mas ainda existe um terceiro personagem nessa nostalgia toda. Esse personagem é real, de carne e osso. É o próprio diretor do filme, Andrei Tarkovsky.
Na época do filme, ele também era um "exilado", que deixou a então União Soviética para trabalhar em outros países da Europa, mas que foi obrigado a deixar parte da família por lá (imposição do regime da época!). A nostalgia então, é toda dele. E com toda razão.


Espiritualidade e Fé





Como em boa parte da obra de Tarkovsky, esse filme também discute questões ligadas à espiritualidade e à fé. Não aquilo ligado a uma religião específica, apesar de demonstrar pequenos detalhes de algumas delas, mas aquilo ligado a ter fé em algo superior que possa nos ajudar, que possa ter misericórdia de nós.
A porta de entrada para esse tema está logo no início do filme, onde o personagem da intérprete vai a uma igreja (que mais parece uma gruta) presenciar o culto a uma santa, que dizem, trazer a fertilidade para as mulheres. Ao ser aberta a veste da imagem da santa, centenas de pássaros saem de dentro dela. A perfeita imagem da fertilidade.





Chegando ao hotel, o poeta conhece Domenico (personagem vivido brilhantemente, como de costume, por Erland Josephson). Ele é um empregado do hotel que é dado como louco pela maioria das pessoas.
Alguns anos antes, ele se trancou em casa com a mulher e os filhos para protegê-los dos males do mundo e para esperar o fim do mundo. Denunciado por vizinhos, as autoridades libertam os familiares, que abandonam Domenico.
Ele então tem a convicção que deve salvar o mundo do seu fim, e claro, salvar a sua família. Para isso, deve realizar um ato de fé: atravessar uma piscina do hotel com uma vela acesa, sem deixar que ela se apague no percurso.
Mas, toda vez que ele tenta isso, é impedido por outros funcionários do hotel.
Como já comentei, Domenico vive em uma casa praticamente abandonada (eu diria que são escombros e não uma casa) com seu cachorro. Ele abandonou tudo que é material, pois sua única motivação é espiritual, pois ele tem fé que esse ato vai salvar o mundo. Quem sabe gerando compaixão para a raça humana.
O poeta, meio perdido, sem saber ao certo que caminho tomar, se identifica cada vez mais com o que Domenico diz e, de repente, a revelação: o poeta percebe que Domenico tem razão!
O mundo caminha para o fim e precisa de um ato de fé. O poeta foi tocado por algo maior que a razão e que lhe dá a visão exata do que deve ser feito para salvar o mundo. Não importando o quanto isso possa parecer sem nenhum nexo para os outros.
Ele combina com Domenico que tentará realizar a travessia, enquanto Domenico vai para o centro da cidade falar às pessoas sobre as suas verdades.
Domenico se dirige ao centro da cidade, reúne várias pessoas e passa a pregar. Ao final, como demonstração de sua fé, se imola, colocando fogo no próprio corpo.
É o seu ato de fé para salvar o mundo.
Enquanto isso, o poeta aproveita que uma piscina, por algum motivo, está vazia e começa a fazer a travessia com a vela acesa.
Ele tenta algumas vezes e ela se apaga. Ele começa novamente até conseguir atravessar e depositar a vela do outro lado da piscina.
Essa jornada, é a jornada do personagem em direção à sua salvação também, porque ao final do filme, vemos uma das imagens mais lindas do filme.
O poeta e o cão, em frente à sua casa da Rússia, mas tudo isso dentro das ruínas de uma antiga igreja. Ele encontrou o caminho, confrontou a sua fé com aquilo que o angustiava.
Pode até não ter salvo o mundo, mas ele se salvou e essa redenção trouxe a paz que não conseguia obter.


Símbolos recorrentes


Tarkovsky utiliza alguns símbolos recorrentes em seus filmes. O que torna ainda mais rica, a experiência de assistir a toda a obra desse, que ainda é um dos principais cineastas do mundo.
A água, normalmente estagnada como os seus personagens (Stalker - 1979), o cão, como um "anjo da guarda" dos personagens (Stalker - 1979) e os sacrifícios de fogo (Sacrifício - 1986), são alguns desses símbolos.


Nostalgia é um filme brilhante, lindo e com um enredo maravilhoso. Fico realmente tentado a concordar com alguns críticos que indicam esse filme como sendo o melhor de Tarkovsky.


Cenas Inesquecíveis


Poderia escrever aqui uma frase simples: "O filme inteiro".
Não estaria sendo preguiçoso e nem exagerado, mas mesmo assim, merecem destaque algumas cenas. Vamos a elas.



  • As cenas no quarto do poeta, principalmente aquela na qual tem um sonho com a sua família e depois acorda. É linda. Quase sem iluminação, somente com a luz natural do quarto. Brilhante.



  • A cena final, onde vemos o poeta em frente a sua cada da Rússia, com tudo isso dentro das ruínas de uma igreja. É uma cena grandiosa e de tirar o fôlego.



  • A fantástica cena da travessia da piscina com a vela acesa. A cena é longa e toda filmada sem cortes. Acompanhamos as desesperadas tentativas em manter a vela acesa. O poeta vai tentando até conseguir. Essa cena é uma aula de como mostrar algo sem ter que descrever por meio de textos. A imagem nos mostra tudo o que os autores querem dizer. É o sacrifício de um homem em um singelo ato de fé. Percebemos todo o desespero desse homem quando a vela se apaga e ele tem que voltar ao começo da jornada. Nenhuma redenção pode vir sem grandes sacrifícios.

Lord of the Reel




sábado, 2 de janeiro de 2010

Melhores Filmes que Assisti em 2009




Aqui vai a primeira lista de 2010. São os melhores filmes que assisti em 2009 (não considerei aqueles que assisti novamente em 2009, apenas os inéditos para mim).
Para quem não assistiu algum deles, são excelentes filmes para começar 2010.
A lista não está em ordem de preferência.

  • Donnie Darko (dir. Richard Kelly)

  • Em Busca da Vida (dir. Jia Zang Ke)

  • O Espírito da Colméia (dir. Victor Erice)

  • Império dos Sonhos (dir. David Lynch)

  • Nostalgia (dir. Andrei Tarkovski)

  • Old Boy (dir. Park Chan-Wook)

  • Primer (dir. Shane Carruth)

  • O Sétimo Continente (dir. Michael Haneke)

  •  Sinédoque, Nova York (dir. Charlie Kaufman)

  • Touro Indomável (dir. Martin Scorsese)



Lord of the Reel

Filmes 2009



Abaixo a lista de filmes que assisti em 2009 (não são muitos, mas é o que deu para ver com o tempo escasso que tive).
Os filmes estão em ordem alfabética, sem qualquer ordem de qualidade (apesar que o primeiro da lista bem que poderia estar nessa posição mesmo, mas foi apenas uma coincidência).


Legenda: (C)inema / (V)ídeo / (T)elevisão

  • 2046 - Os Segredos do Amor (V)
  • Anjos Rebeldes (V)
  • Casal Admirável, Um (V)
  • Click (T)
  • Cronocrímenes, Los (V)
  • Curioso Caso de Benjamin Button, O (C)
  • Do Outro Lado (V)
  • Donnie Darko (V)
  • Em Busca da Vida (T)
  • Em Fuga (V)
  • Era do Gelo 3, A (C)
  • Escafandro e a Borboleta, O (V)
  • Espírito da Colméia, O (V)
  • Feitiço do Tempo (T)
  • Freaks (V)
  • Glen ou Glenda (T)
  • Heavy Metal 2000 (V)
  • Império dos Sonhos (V)
  • Man From Earth, The (V)
  • Medos Privados em Lugares Públicos (V)
  • Mississipi em Chamas (T)
  • Mistérios e Paixões (T)
  • Mulher e La Bête, A (V)
  • Nome do Jogo, O (T)
  • Nostalgia (V)
  • Old Boy (T)
  • Pacto de Sangue (T)
  • Paixão Selvagem (V)
  • Primer (V)
  • Sacrifício (V)
  • Santa Sangre (V)
  • Sétimo Continente, O (V)
  • Silêncio de Lorna, O (V)
  • Sinédoque, Nova York (C)
  • Stardust, O Mistério da Estrela (T)
  • Terminal, O (T)
  • Touro Indomável (T)
  • Tropa de Elite (T)
  • Up - Altas Aventuras (C)
  • Vocês, Os Vivos (V)
  • Volver (T)
  • Wall-E (V)

Lord of the Reel