Nostalgia (Nostalghia)- 1983
URSS / Itália
Elenco: Oleg Yankovskiy, Erland Josephson, Domiziana Giordano
Site: IMDB
Poeta russo empreende viagem pela Itália, junto com sua intérprete italiana, atrás de informações sobre compositor, também russo, que viajou e morreu naquele país. A causa da morte: nostalgia. Eles se hospedam em um hotel/balneário onde o poeta conhece um empregado, Domenico, considerado louco pelas pessoas, porque alguns anos antes, trancou-se com a família em uma casa, para evitar que eles tivessem contato com os males do mundo e para esperar o fim do mundo.
O poeta se identifica, cada vez mais, com a história do empregado e passa a achar que ele não está errado em suas crenças apocalípticas.
Por que gostar desse filme?
Nostalgia não é um filme fácil de ser assistido. O ritmo é lento, as imagens contemplativas, a fotografia (em boa parte do filme) é quase sem cor, o enredo não é fácil e algumas cenas são bastante enigmáticas. Realmente não é o filme para aqueles que esperam diversão fácil.
Mas, para aqueles que querem mergulhar nessa obra-prima não sairão decepcionados (como praticamente em todos os filmes do diretor).
Tarkovsky divide o roteiro do filme com outro monstro sagrado dos roteiristas, o italiano Tonino Guerra.
Comecemos por alguns aspectos "técnicos" do filme, mas que apresentam relação direta com o desenvolvimento do enredo.
Beleza do "quase preto-e-branco"
Nostalgia é com certeza um dos filmes mais bonitos que já assisti (se não for o mais bonito). Assistir a esse filme causa um grande impacto. Quando o filme termina é preciso tomar fôlego novamente para raciocinar sobre o que foi apresentado.
É impressionante perceber que dá para assistir ao filme sem legenda nenhuma e mesmo assim desfrutar das maravilhosas imagens, mesmo sem compreender nenhum dos diálogos. Óbvio que isso é um grande desperdício, mas o filme é bonito mesmo.
A fotografia do filme vai desde cores naturais (nas cenas iniciais da igreja e nas cenas do centro da cidade) até um incrivelmente belo preto-e-branco (nas memórias do poeta sobre a sua família), passando por um, digamos "quase preto-e-branco" maravilhoso (principalmente dentro do hotel, mostrando o estado de espírito do poeta).
O mais interessante é que a utilização dessa fotografia está completamente integrada ao enredo, mostrando o estado de espírito do personagem. Ele nem está completamente integrado ao tempo atual (Itália colorida) e nem consegue esquecer a família (passado em preto-e-branco). Daí essa cor sem colorido.
Nota máxima para Giuseppe Lanci, o diretor de fotografia do filme.
Onde o diretor arrumou essas locações?
Outro aspecto brilhante em Nostalgia é a escolha das locações. Elas foram simplesmente brilhantes.
Começando pelo hotel onde o poeta se hospeda. É uma mistura de hotel com balneário (com inúmeras piscinas termais). Deve ser algo da época do Império Romano. Em um primeiro momento, parece um local normal, mas com o tempo vai adquirindo formas de um lugar um tanto fantasmagórico.
Contribui para isso, a escolha do diretor em praticamente não mostrar mais ninguém, a não ser o poeta, sua intérprete e o empregado (praticamente todo o filme se desenvolve em torno desses três personagens). Nas cenas próximas às piscinas existe uma névoa sobre as pessoas, apenas ouvimos seus comentários e praticamente nada vemos. É sensacional, dá a impressão de que o personagem está vivendo em um purgatório.
A casa de Domenico (o empregado) é outro achado. Parece alguma coisa abandonada, onde entra água por todos os lados. É outro lugar fora do nosso mundo, algo sobrenatural, onde somente alguém com as convicções de Domenico poderiam mesmo morar.
Outra cena que chama a atenção para a locação é aquela onde o poeta conversa com uma criança (veja a imagem acima). Afinal de contas, que raio de lugar era aquele? E pior, não é cenográfico, é uma locação real! É um lugar alagado, cheio de plantas submersas. Incrível.
Novamente os aspectos técnicos agem em conformidade com o desenvolvimento do enredo. O poeta vive em uma espécie de limbo pessoal, sem muita motivação para continuar a pesquisa e sem muita oportunidade para voltar para casa.
Em especial, a cena do local alagado é emblemática. O poeta está atolado naquele lugar e não consegue nem ir para frente e nem para trás. A água é estagnada, como a vida do personagem.
A nostalgia do autor
Observando o filme pelo seu enredo, podemos perceber duas preocupações básicas dos autores. A primeira, demonstrar o estado de espírito do próprio diretor do filme, a sua nostalgia e, em segundo lugar, mais uma vez na obra de Tarkovsky, mostrar a espiritualidade e a fé do homem.
Vale a pena observar como esses dois aspectos vão sendo apresentados pelo filme. Inicialmente, temos o aspecto da nostalgia. Com o passar do tempo, a questão da espiritualidade vai surgindo e vai tomando conta do enredo, principalmente porque a nostalgia do personagem o deixa preparado para a mudança espiritual que se opera nele. E finalmente, a espiritualidade "cura" a nostalgia do poeta.
O enredo apresenta dois personagens padecendo do mesmo mal: a nostalgia.
Primeiramente, temos o compositor russo do século 19, exilado por algum motivo na Itália e que morre lá, segundo alguns depoimentos, de nostalgia (saudades do seu país e de sua gente).
Em segundo lugar temos o poeta (personagem principal do filme, vivido por Oleg Yankovskiy) que também está como que exilado na Itália, pesquisando a vida do compositor conterrâneo e que demonstra uma saudade enorme de sua família, por intermédio de suas memórias em preto-e-branco.
Essa nostalgia é amplificada pelo assédio que ele sofre de Eugenia, sua intérprete italiana (vivida por Domiziana Giordano).
Esses dois personagens nos apresentam a sua nostalgia de uma forma até que clara, mas ainda existe um terceiro personagem nessa nostalgia toda. Esse personagem é real, de carne e osso. É o próprio diretor do filme, Andrei Tarkovsky.
Na época do filme, ele também era um "exilado", que deixou a então União Soviética para trabalhar em outros países da Europa, mas que foi obrigado a deixar parte da família por lá (imposição do regime da época!). A nostalgia então, é toda dele. E com toda razão.
Espiritualidade e Fé
Como em boa parte da obra de Tarkovsky, esse filme também discute questões ligadas à espiritualidade e à fé. Não aquilo ligado a uma religião específica, apesar de demonstrar pequenos detalhes de algumas delas, mas aquilo ligado a ter fé em algo superior que possa nos ajudar, que possa ter misericórdia de nós.
A porta de entrada para esse tema está logo no início do filme, onde o personagem da intérprete vai a uma igreja (que mais parece uma gruta) presenciar o culto a uma santa, que dizem, trazer a fertilidade para as mulheres. Ao ser aberta a veste da imagem da santa, centenas de pássaros saem de dentro dela. A perfeita imagem da fertilidade.
Chegando ao hotel, o poeta conhece Domenico (personagem vivido brilhantemente, como de costume, por Erland Josephson). Ele é um empregado do hotel que é dado como louco pela maioria das pessoas.
Alguns anos antes, ele se trancou em casa com a mulher e os filhos para protegê-los dos males do mundo e para esperar o fim do mundo. Denunciado por vizinhos, as autoridades libertam os familiares, que abandonam Domenico.
Ele então tem a convicção que deve salvar o mundo do seu fim, e claro, salvar a sua família. Para isso, deve realizar um ato de fé: atravessar uma piscina do hotel com uma vela acesa, sem deixar que ela se apague no percurso.
Mas, toda vez que ele tenta isso, é impedido por outros funcionários do hotel.
Como já comentei, Domenico vive em uma casa praticamente abandonada (eu diria que são escombros e não uma casa) com seu cachorro. Ele abandonou tudo que é material, pois sua única motivação é espiritual, pois ele tem fé que esse ato vai salvar o mundo. Quem sabe gerando compaixão para a raça humana.
O poeta, meio perdido, sem saber ao certo que caminho tomar, se identifica cada vez mais com o que Domenico diz e, de repente, a revelação: o poeta percebe que Domenico tem razão!
O mundo caminha para o fim e precisa de um ato de fé. O poeta foi tocado por algo maior que a razão e que lhe dá a visão exata do que deve ser feito para salvar o mundo. Não importando o quanto isso possa parecer sem nenhum nexo para os outros.
Ele combina com Domenico que tentará realizar a travessia, enquanto Domenico vai para o centro da cidade falar às pessoas sobre as suas verdades.
Domenico se dirige ao centro da cidade, reúne várias pessoas e passa a pregar. Ao final, como demonstração de sua fé, se imola, colocando fogo no próprio corpo.
É o seu ato de fé para salvar o mundo.
Enquanto isso, o poeta aproveita que uma piscina, por algum motivo, está vazia e começa a fazer a travessia com a vela acesa.
Ele tenta algumas vezes e ela se apaga. Ele começa novamente até conseguir atravessar e depositar a vela do outro lado da piscina.
Essa jornada, é a jornada do personagem em direção à sua salvação também, porque ao final do filme, vemos uma das imagens mais lindas do filme.
O poeta e o cão, em frente à sua casa da Rússia, mas tudo isso dentro das ruínas de uma antiga igreja. Ele encontrou o caminho, confrontou a sua fé com aquilo que o angustiava.
Pode até não ter salvo o mundo, mas ele se salvou e essa redenção trouxe a paz que não conseguia obter.
Símbolos recorrentes
Tarkovsky utiliza alguns símbolos recorrentes em seus filmes. O que torna ainda mais rica, a experiência de assistir a toda a obra desse, que ainda é um dos principais cineastas do mundo.
A água, normalmente estagnada como os seus personagens (Stalker - 1979), o cão, como um "anjo da guarda" dos personagens (Stalker - 1979) e os sacrifícios de fogo (Sacrifício - 1986), são alguns desses símbolos.
Nostalgia é um filme brilhante, lindo e com um enredo maravilhoso. Fico realmente tentado a concordar com alguns críticos que indicam esse filme como sendo o melhor de Tarkovsky.
Cenas Inesquecíveis
Poderia escrever aqui uma frase simples: "O filme inteiro".
Não estaria sendo preguiçoso e nem exagerado, mas mesmo assim, merecem destaque algumas cenas. Vamos a elas.
- As cenas no quarto do poeta, principalmente aquela na qual tem um sonho com a sua família e depois acorda. É linda. Quase sem iluminação, somente com a luz natural do quarto. Brilhante.
- A cena final, onde vemos o poeta em frente a sua cada da Rússia, com tudo isso dentro das ruínas de uma igreja. É uma cena grandiosa e de tirar o fôlego.
- A fantástica cena da travessia da piscina com a vela acesa. A cena é longa e toda filmada sem cortes. Acompanhamos as desesperadas tentativas em manter a vela acesa. O poeta vai tentando até conseguir. Essa cena é uma aula de como mostrar algo sem ter que descrever por meio de textos. A imagem nos mostra tudo o que os autores querem dizer. É o sacrifício de um homem em um singelo ato de fé. Percebemos todo o desespero desse homem quando a vela se apaga e ele tem que voltar ao começo da jornada. Nenhuma redenção pode vir sem grandes sacrifícios.
Lord of the Reel









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