domingo, 6 de dezembro de 2009

Um Conto de Dia das Bruxas



Donnie Darko (Donnie Darko) - 2001
EUA





Diretor - Richard Kelly
Elenco - Jack Gyllenhaal, Jena Malone, Maggie Gyllenhaal, Patrick Swayze, James Duval, Mary McDonnell, Katharine Ross, Drew Barrymore


Sites: IMDB / Site Oficial


Rapaz desajustado e com problemas psicológicos recebe um chamado de um "coelho gigante" que o salva da morte, quando a turbina de um avião cai sobre a sua casa (e que ninguém tem a menor idéia de onde veio!). Além disso, o "coelho" alerta o rapaz que faltam poucos dias para  o fim do mundo e começa a induzí-lo a cometer certos atos que modificarão a vida dele. Entre outras coisas, ele induz o rapaz a estudar as possibilidades de viagens no tempo.


Por que gostar desse filme?


O filme começa ao som de Echo and The Bunnymen ! E a música é "Killing Moon" !! Só isso já bastaria para ser um filme legal.
Quando o protagonista vai transar pela primeira vez com a namorada está tocando "Love Will Tear Us Apart" do Joy Division !!! Isso faz com que o filme seja ainda mais legal.
Mas isso é só uma parte da viagem. E a viagem é maravilhosa.
Com o argumento acima fica difícil imaginar onde vai parar essa história. E a história realmente toma caminhos inusitados.
Donnie Darko é um filme muito especial.
Em primeiro lugar, pela mistura de gêneros, muito bem imaginada pelo autor (Richard Kelly). Em segundo lugar, porque é um filme muito bem dirigido, montado e com atuações excelentes de todo o elenco.
É preciso destacar a atuação do protagonista, Jack Gyllenhaal. Ele nos passa todas as emoções desencontradas e contraditórias pelas quais o personagem passa ao longo da história. Ele está excepcional nesse filme.
Outro aspecto fundamental para a qualidade do filme é que ele permite inúmeras interpretações. Quando terminamos de assistir o filme, temos a sensação de ter visto algo muito estranho, interessante, mas que precisa ser melhor "digerido" para ser melhor entendido. Esse é um filme que merece ser visto mais do que uma vez.
É um filme muito inteligente, com uma mistura de elementos relacionados à religiosidade, a sobrenatural, à ficção científica, ao drama e a outros assuntos.
Concordo com aquelas pessoas que encontram furos no roteiro do filme (nada é perfeito mesmo!). Mas, não vejo esses pequenos furos como problemas, muito pelo contrário. São esses defeitos que mostram o caráter autoral do filme e realçam as suas qualidades.


A Felicidade Não Se Compra (Se consegue a machadadas!)





Donnie Darko, em sua essência, é um filme sobre a existência, ou não, do livre arbítrio. Se somos guiados por um destino predeterminado ou se é possível modificar esse destino (por exemplo, voltando no tempo e modificando o futuro!).
Para apresentar esses conceitos, o filme se apresenta, em linhas gerais, como um espelho do filme A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra (1949). Enquanto o filme da década de quarenta é um Conto de Natal, podemos considerar Donnie Darko como um Conto do Dia das Bruxas! Vou tentar explicar.
No clássico de Capra, na véspera de Natal, o personagem vivido por James Stewart tenta se matar, por acreditar que seria melhor assim (para parentes e amigos). Então um anjo é enviado dos céus para mostrar a ele como teria sido o mundo se ele não tivesse existido. O personagem percebe que foi muito mais importante para as outras pessoas, do que ele imaginava, e resolve não se matar e tudo termina bem. Todos felizes para sempre.
Já, em Donnie Darko as tonalidades são um pouco mais sombrias (aqui, "darko" vem de "dark" mesmo).
Donnie não está tentando se matar, mas tem muitas dúvidas na cabeça, inclusive sobre a sua sanidade. Realmente, ver um coelho gigante não é das coisas mais saudáveis que pode acontecer com você.
Ele é um daqueles adolescentes revoltados típico (ou praticamente típicos), que briga com a irmã mais velha, ofende a mãe e os outros e é perseguido pelos delinqüentes da escola. Contudo, ao mesmo tempo, ele é um adolescente com profundos problemas psicológicos (que o obrigam a se entupir de medicamentos) e que já "aprontou" muitas, mas isso não impede que ele seja extremamente inteligente e perspicaz.
Numa noite, Donnie recebe a visita de Frank. Não um anjo, mas um coelho gigante!
Na verdade, alguém vestindo uma fantasia peluda e com uma máscara macabra de coelho.
Frank é um espírito do futuro que vem salvar Donnie da morte (pela queda de uma turbina de avião, que ninguém consegue saber de onde veio) e mostrar para ele as desgraças decorrente dessa salvação!!
Ao salvar Donnie, o coelho avisa que faltam 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos para o fim do mundo. Na verdade, o que Donnie vai descobrir é que esse é o prazo para que ele se resigne com o seu destino.
Donnie vai descobrir que é possível voltar ao passado, para modificar o futuro e resolver um monte de problemas gerados por ele ter permanecido vivo. Ele afirma "Eu prometo que, um dia, as coisas serão melhores para você".
É o fim do mundo para Donnie. Mas ele está feliz.
O interessante é que as visões com Frank começam quando Donnie toma os seus comprimidos, levando-nos a acreditar em alucinação. Mas essa é uma explicação simplista demais .......
Lendo sobre a versão do diretor (director's cut), descobri que foi acrescentada uma cena (cortada da edição original do filme). Em uma dessas sessões de hipnose a que Donnie é submetido pela sua psiquiatra, ele vê Frank e tem uma crise, porque descobre que Frank vai matar alguém naquela noite. Assustada, a psiquiatra o tira do transe hipnótico.
Até aí tudo igual, mas na versão do diretor, somos informados que os medicamentos que ele toma são placebos!! Isso explica muita coisa.
Na verdade esse filme é um grande quebra-cabeças que você deve ir montando conforme as peças vão surgindo.


Quem é Frank? O Coelho da Alice?





Talvez Frank seja uma espécie de coelho "atrasado" de Alice (ou melhor, de Donnie) que dever ser perseguido quando estivermos dentro do espelho.
Em boa parte do filme ficamos sem saber quem é Frank e porque está vestindo essa fantasia. Mesmo quando Donnie faz com que ele tire a máscara, a pessoa é uma desconhecida, tanto para nós, quanto para Donnie. Só descobriremos, quase no final do filme, que ele é o namorado da irmã mais velha de Donnie (vivida por Maggie Gyllenhaal) e que foi morto com um tiro no olho. Disparado por quem? Por Donnie!
Ele é um espírito do futuro que volta para "guiar" Donnie por sua jornada de auto-conhecimento e de acerto de contas consigo mesmo. Nessa jornada, ele leva o protagonista a cometer alguns delitos, com consequências das mais variadas.
Por exemplo, quando Frank faz Donnie inundar a escola, o cancelamento das aulas faz com que ele possa conversar com Gretchen (vivida por Jena Malone), a aluna nova da escola, e começar o seu namoro com ela. Mas isso vai levar a outras consequências, dessa vez trágicas. Tanto para Gretchen, quanto para Frank (para não dizer o próprio Donnie).









Outro delito é incendiar a mansão de Jim Cunningham, famoso guru de auto-ajuda (vivido por Patrick Swayze), que Donnie em determinado momento do filme chama de anticristo. Devido ao incêndio os bombeiros vão descobrir que Cunningham é um pedófilo que filma as suas perversões em um quarto escondido na mansão incendiada.
Outro caminho, pelo qual Frank leva Donnie é o estudo das viagens no tempo. Incitado por Frank, Donnie começa a estudar o assunto com consequências imprevistas.


Vovó Morte








Outro personagem fundamental para a trama, apesar de pouco fazer, é a Vovó Morte. Ou melhor, Roberta Sparrow, ex-professora de física do colégio da cidade, que se tornou uma reclusa, sem se comunicar com ninguém e considerada maluca pelas pessoas da cidade.
No primeiro momento que a conhecemos no filme (quando o pai de Donnie quase a atropela) ela sussurra no ouvido de Donnie que todas as criaturas morrem sozinhas. Isso o afeta muito, porque esse é um dos seus grandes medos.
Em seguida, quando Donnie está especulando seu professor de física sobre viagens no tempo, ele recebe um livro intitulado "Filosofia das Viagens no Tempo" da autoria de Roberta Sparrow!
Nesse livro são descritos os "portais do tempo" (wormholes) que Donnie começa a enxergar. Esses "portais" revelam o futuro das pessoas, indicando o "caminho" que essa pessoa irá seguir.


Dia das Bruxas


O prazo apresentado por Frank está acabando e na noite do Dia das Bruxas está acontecendo uma festa na casa de Donnie.
Durante essa festa, ele olha dentro do "portal" de Gretchen e percebe que não tem como modificar o futuro. Então, ele, Gretchen e dois amigos vão para a casa da Vovó Morte.
Os delinquentes da escola, que vivem atormentando Donnie, estão tentando roubar a casa da velha. Quando Donnie e os amigos chegam ao local, eles são pegos e ameaçados do lado de fora da casa, até o momento no qual um carro aparece no horizonte.
Os malandros se assustam e vão embora, mas o carro, para evitar atropelar a velha, atropela e mata Gretchen, que está desmaiada no chão.
Quem dirige o carro? Frank, namorado da irmã de Donnie, vestido com sua fantasia de coelho gigante. Quando Frank desce do carro, Donnie não tem outra opção (é o seu destino), a não ser atirar nele e matá-lo com um tiro no olho direito!
Ele leva o corpo de Gretchen para o alto de uma colina e observa o estranho vórtice sendo criado sobre a cidade (mais precisamente sobre o seu quarto!).








Com tudo consumado, Donnie cumpre o seu destino, que é voltar ao passado e consertar tudo de ruim que aconteceu. Mas, para que isso ocorra, ele deve morrer na queda da turbina, para que essa "versão" do futuro nunca exista.
Na verdade, a turbina é do avião onde estão a mãe e a irmã mais nova dele, voltando para casa.
A turbina é capturada pelo vórtice (na verdade um "portal do tempo") e volta para o momento da queda.
Vemos Donnie na cama, sorridente e confiante. Ele entendeu o que se passou, a visita do seu "anjo" surtiu o efeito esperado.
Ele não está mais sozinho, ele se reconciliou consigo mesmo e com Deus. Descobriu que pode ser amado e amar, a ponto de se sacrificar por essas pessoas.
A certa altura do filme, Gretchen pergunta a Donnie: "E se você voltar no tempo e livrar os outros de horas de dor e escuridão, e substituir por algo melhor?". É o que ele faz.
Sinceramente? É um final extremamente triste. Vemos toda a família de Donnie do lado de fora da casa, completamente abalados com a sua morte. Gretchen, que ainda não conheceu Donnie (e nem vai conhecer), acena para a mãe dele.


Destino x Livre Arbítrio





Algumas pessoas vêem esse filme, como sendo um filme sobre viagem no tempo. Realmente a viagem no tempo ocorre, mas ela só existe no enredo para discutir a questão do livre arbítrio.
O diálogo chave para compreender isso, acontece entre Donnie e o seu professor de física.


Donnie: Esse portal, ele pode aparecer em qualquer lugar e qualquer hora?
Professor: Acho isso pouco provável. Acho que você está falando de um ato de Deus.
Donnie: Se Deus controle o tempo, o tempo foi pré-decidido.
Professor: Não estou entendendo.
Donnie: Todas as coisas vivas seguem um caminho. Se você puder ver o seu caminho, então poderia ver o futuro, certo? Como uma viagem no tempo.
Professor: Você está se contradizendo, Donnie. Se fossemos capazes de ver nosso futuro, nosso destino, então teríamos a escolha de mudar nossos destinos. E o fato dessas escolhas existirem, faria com que todo destino pré-direcionado tivesse fim.
Donnie: Não, se você viajar pelo caminho de Deus.


Essa é a chave para a discussão filosófica do filme. O interessante é que toda a discussão acontece, baseada em algo que ninguém acredita que seja possível existir: viagens no tempo.
Donnie acredita na existência do destino, no futuro pré-determinado por Deus e como ele está enxergando "portais" das pessoas, ele acredita que pode saber o futuro delas.
O professor, cético e racional, argumenta que a existência da viagem no tempo (para o passado), permitiria a mudança do futuro e por consequência, o destino pré-determinado não existiria mais.
Contra essa argumentação, Donnie contrapõe a fé, dizendo que talvez a mudança no futuro já fosse algo pré-determinado também (o "caminho de Deus").
O que acontece no final do filme não toma partido de nenhuma das teorias. E nem é a sua intenção. O importante é a questão levantada.
Nos momentos finais, percebemos uma religiosidade em Donnie, que não era percebida anteriormente. É uma mistura de revelação com resignação.
É interessante observar isso em toda a sequência na frente da casa da Vovó Morte e na sequência anterior (na festa).
Durante a festa, Donnie observa o "portal" de Gretchen e, claro, descobre o que vai acontecer a ela. Mesmo assim, ele não procura impedir, mas até precipitar os acontecimentos, para que o destino seja cumprido. Um diálogo estranho ocorre durante a luta de Donnie com o delinquente, enquanto Gretchen está caída e prestes a ser atropelada.
Num primeiro momento Donnie suplica "Deus, salve-a". Para logo em seguida dizer: "Nosso salvador" É mais um enigma desse filme.
Acredito que seja Donnie se reconciliando com Deus, assumindo e tentando evitar o seu destino. Mas, ele percebe que não existe outra saída. Ele deve ser sacrificar.


Mais Detalhes Importantes


Como citei, você precisa ficar ligado nos detalhes. Alguns mais, outro menos importantes. Vejamos alguns deles:

  • A interessante discussão sobre o sexo dos Smurfs e da Smurfette!
  • Quando a professora de literatura está se despedindo, está escrito na lousa "Cellar Door" (porta do porão). Ela explica a Donnie que linguistas elegeram essa combinação de palavras como a mais bonita da língua inglesa. É exatamente na frente do porão da casa da Vovó Morte que ocorre o clímax.
  • No final, enquanto Donnie morre atingido pela turbina, vemos a reação de diversas pessoas ligadas a ele. Frank, por exemplo, está trabalhando em esboços da máscara do coelho e sente algo no olho direito! O olho está salvo. Cunningham chora copiosamente ao perceber todos os seus pecados e se arrepende. A estudante, que é secretamente apaixonada por Donnie, dorme em paz, como ele havia prometido a ela. A psiquiatra acorda sobressaltada.
Algumas cenas são mais intigrantes ainda e são difíceis de explicar.
  • O que faz aquela cabeça de coelho (parecida com a máscara de Frank) na bancada da cozinha, na casa dos Darko?
  • Por que a psiquiatra insiste em falar com Donnie urgentemente na noite da festa?
  • Por que a mãe de Donnie é a única a não chorar pela morte dele, na cena final?
  • Por que, no momento da queda da turbina (pela segunda vez), ouvimos uma buzina insistentes sendo tocada?


Assista a Donnie Darko. É o típico cult movie, inteligente, bem dirigido e montado. Muito interessante de ser assistido. Grande filme esquecido pelo grande público. Uma pena.


Lord of the Reel


domingo, 8 de novembro de 2009

Como adaptar a própria vida para o cinema!



Adaptação (Adaptation) - 2002
EUA





Diretor - Spike Jonze
Elenco - Nicholas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Tilda Swinton


Sites: IMDB / Site Oficial


Roteirista famoso sofre um bloqueio ao tentar adaptar para o cinema livro de escritora famosa. Para complicar a situação, ele recebe a visita de seu irmão gêmeo que está fazendo um curso para roteirista de cinema e que se propõe a ajudá-lo a terminar o trabalho.


Por que gostar desse filme?


Adaptação é um dos roteiros mais inteligentes que já vi no cinema. E deveria ser mesmo, já que o filme mostra o trabalho de um roteirista em plena crise de criatividade, mas o que o torna inesquecível é a forma como essa história é contada.
O roteirista Charlie Kaufman (interpretado esplendidamente por Nicholas Cage), que goza de certo prestígio no meio cinematográfico, recebe a incumbência de adaptar para o cinema um livro da escritora Susan Orlean (interpretada, como sempre, de maneira muito eficiente por Meryl Streep). O livro em questão, The Orchid Thief, trata da investigação da autora sobre a prisão de John Laroche (interpretado por Chris Cooper) por furto de orquídeas em uma reserva estadual (em especial a raríssima Orquídea Fantasma).
Charlie é uma pessoa muito insegura e se sente incapaz de criar esse roteiro, principalmente porque boa parte do livro trata unicamente de flores. Surge o bloqueio e o roteiro não sai do lugar.
Para piorar a situação, Charlie recebe em casa o seu irmão gêmeo Donald (também vivido por Cage) que está participando de um curso para criação de roteiros de cinema.
O conflito de opiniões é enorme. Enquanto Charlie deseja criar roteiros mais introspectivos, que reflitam a vida das pessoas e que evitem a todo custo cenas com sexo, violência e perseguições (como pedem as platéias de hoje em dia), Donald cria seus roteiros exatamente da forma que Charlie procura evitar (apesar que as idéias de roteiro dele são muito engraçadas).
O pior de tudo é que os roteiros de Donald são elogiados pelo seu professor e um deles foi aceito por um produtor para ser filmado.
O tempo passa e Charlie tem várias idéias para o seu roteiro, mas não consegue ter pelo menos um "fio da meada" para o filme. Então, Donald se propõe a ajudar o irmão a finalizar o seu roteiro.
Pelo apresentado até aqui, o filme não parece nada muito interessante e, pior, parece se encaminhar para aquele "água com açúcar" tradicional com irmãos se reconciliando, filosofia sobre aceitar as idéias dos outros e por aí vai.
Puro engano, pois apesar disso acabar acontecendo, a maneira como acontece é inusitada.
Para melhorar a compreensão do caminho no qual o filme se envereda, veja esses pequenos detalhes:

  • Charlie Kaufman existe na vida real. Também é roteirista de cinema (do filme Quero Ser John Malkovich, por exemplo) e por uma incrível coincidência é o roteirista desse filme! Isso mesmo, o roteiro de Adaptação é de Charlie Kaufman. O real. Ou seria o fictício?!!?
  • A escritora Susan Orlean e John Laroche (retratado no livro dela) também existem na vida real. Outro detalhe: o livro que está sendo adaptado também existe!
  • Como isso em mente, parece que o filme é uma adaptação da biografia dos personagens, ou pelo menos, que o filme apresenta uma passagem da vida deles. Nada disso! O filme é uma ficção em todos os aspectos (lembrem é uma adaptação).
  • Agora o melhor de tudo: Charlie Kaufman (o real) não tem nenhum irmão gêmeo, mas Donald Kaufman aparece nos créditos de Adaptação como co-roteirista do filme!! (me parece algo meio esquizofrênico)




O que estamos assistindo afinal?


O nível de compreensão mais óbvio é que estamos vendo um filme (real, pois estamos no mundo real assistindo o filme) sobre um roteirista que está escrevendo um roteiro para um filme (fictício, dentro da história do filme real). Mas o que torna isso interessante é o outro nível de compreensão que podemos ter do filme.
Na verdade, o roteiro que está sendo escrito dentro da história (ficção) é o roteiro do próprio filme que estamos assistindo (o filme real)! É sensacional...
Isso é demonstrado na melhor cena do filme, que já classifico como uma daquelas antológicas da história do cinema. Charlie narra em um gravador uma cena para o seu filme (fictício), mas a cena que ele descreve é exatamente a cena que estamos assistindo no momento!! É uma mistura de real e fictício mostrada de uma maneira absolutamente criativa. Podem dizer o que quiserem, mas é coisa de gênio.
É como se estivéssemos dentro da cabeça do artista, presenciando exatamente a gênese da obra de arte.


Adaptação


Não bastasse esse aspecto do filme, o autor leva essa idéia de observação da gênese da criação mais adiante.
A partir do momento no qual Donald começa a ajudar Charlie na criação do roteiro, o filme que  assistimos simplesmente enlouquece. De uma hora para outra o comportamento dos personagens muda completamente, o ritmo do filme muda e o filme, de comédia misturada com drama, muda para um thriller, com crimes, perseguições e tudo mais.
Começa então, uma trama regada a drogas, sexo e violência, onde Susan e John estão envolvidos em atividades ilícitas e que culmina em uma perseguição em um pântano com algumas mortes.
Ou seja, a partir desse momento, o roteiro que estamos assistindo não é mais de Charlie, mas sim de Donald. É uma "aula" sobre  como uma adaptação cinematográfica pode ser feita e sobre a eterna luta entre o ser "popular" ou "autoral".
Acabamos vendo dois filmes dentro de um só.
Outro detalhe curioso é que a maioria dos personagens existe na vida real e que não fizeram nada do que aparece no filme! Tudo, como o próprio nome do filme denuncia, é uma adaptação sobre uma história original (a vida dessas pessoas).
É preciso bastante ousadia para tomar personagens da vida real, misturá-los em uma história que mostra uma vida "paralela" dessas pessoas. E essa ousadia é ainda maior se observarmos a forma como o roteirista retrata a si mesmo neste filme.
Esse é um daqueles filmes no qual o espectador deve aceitar as regras do "jogo" propostas pelo filme e entrar nele de cabeça. Aqueles que entrarem no "jogo" vão se deslumbrar com um dos filmes mais criativos de todos os tempos.
É um filme para quem gosta de cinema e para quem gosta de ser desafiado a pensar no que está vendo. Veja e reveja esse filme, porque a cada nova visão ele se apresenta mais interessante.


Dica: se você gostou desse filme assista Sinédoque - Nova York, escrito e dirigido por Charlie Kaufman (o real). Ele consegue ir mais fundo ainda no conceito de apresentar o processo de criação de uma obra de arte. É outro filme fantástico que ainda vou comentar aqui.


Cenas Inesquecíveis

  • Charlie narra em um gravador exatamente a cena que estamos vendo na tela, nos informando que, na verdade, estamos assistindo ao roteiro dele (personagem). Desde já, essa cena merece entrar para o conjunto de cenas memoráveis do cinema de todos os tempos.
  • A cena de perseguição no pântano, ápice da espiral de loucura que o filme se transforma depois que Donald assume o "roteiro" do filme. Essa cena culmina com a morte de dois personagens principais, entre eles o próprio Donald!
Lord of the Reel




terça-feira, 6 de outubro de 2009

A verdadeira glória da guerra é sair vivo dela


Agonia e Glória (The Big Red One) - 1980
EUA




Diretor: Samuel Fuller
Elenco: Lee Marvin, Robert Carradine, Mark Hamill, Bobby Di Cicco, Kelly Ward, Stéphane Audran


Site: IMDB


O filme acompanha a história do primeiro batalhão de infantaria do exército americano (o "Big Red One" do título original), ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial. Na verdade, é a história de um sargento (vivido de forma brilhante por Lee Marvin) e mais quatro soldados. Aqueles que sobrevivem à guerra, pois esse pelotão é sempre o primeiro a chegar nas investidas dos Aliados e os soldados novos vão morrendo, uns após os outros.


Por que gostar desse filme?


Agonia e Glória é um dos melhores filmes de guerras já apresentados no cinema, além de apresentar como diretor Samuel Fuller, um dos diretores americanos mais reconhecidos pela crítica.
Esse filme apresenta uma visão muito particular e dura sobre a Segunda Guerra (e por consequência de todas as guerras) e a reação dos soldados a ela. Os diálogos desse filme são um show à parte. Constituem algumas das frases mais contundentes contra a ignorância das guerras. O próprio diretor lutou na Segunda Guerra e muito da sua experiência nela está nesse filme.
O filme focaliza a jornada de cinco soldados, em um batalhão que passa por muitos acontecimentos importantes da Segunda Guerra Mundial. Eles começam no norte da África, combatendo divisões alemãs de tanques, vão para a Sicília (invasão da Itália), desembarcam na Normandia no dia D e continuam França adentro e chegam na Bélgica. São obrigados a recuar. Avançam novamente, e finalmente chegam à antiga Tchecoslováquia, onde são os primeiros a entrar em um campo de concentração de judeus.
O batalhão vai recebendo e perdendo soldados ao longo da guerra e os cinco vão sobrevivendo. Os mortos são sempre substituídos por mais soldados para serem mortos também. A guerra é um verdadeiro moedor de carnes.
Alguns detalhes sintetizam esse conceito, como por exemplo, a cena na qual o narrador (alter ego do diretor, sempre com seu charuto e vivido por Robert Carradine) comenta que os cinco procuram não conhecer os novos soldados que vão chegando. Praticamente não há tempo para isso, logo estarão mortos.


Realismo


É impossível comparar o realismo das cenas de batalha de filmes como O Resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg) com as cenas desse filme. O filme de Fuller sairia perdendo feio.
Mas esse detalhe não é importante para o filme. O diretor consegue passar todo o mal estar, toda estupidez da guerra sem utilizar cenas completamente realistas, com muito sangue e corpos retalhados.
É muito curioso observar como as pessoas possuem visões diferentes de um mesmo filme. Ainda bem, porque isso é o que torna o cinema uma arte tão fascinante.
Nesse filme, algumas pessoas se concentraram em observar as falhas em retratar com realismo as batalhas, como por exemplo, que os tanques alemães não eram na realidade tanques alemães e que as armas não deveriam disparar tantos tiros.
Na minha opinião, uma grande besteira diante da grandeza da mensagem anti-guerra e humanista do filme, da direção maravilhosa e das atuações do elenco. São exatamente essas "imperfeições" que tornam esse filme muito mais humano.
Essa sempre é a minha opinião. Certa vez, ouvi uma conversa muito interessante, em uma fila de espera para assistir um filme. A conversa sintetiza como sinto o cinema. Duas pessoas conversavam sobre um filme de Fellini, quando uma dela disse que se ele colocasse uma parede branca e dissesse que era um navio, quem estivesse assistindo acreditaria que era um navio mesmo (veja E la Nave Va, e entenda o que estavam dizendo).
Cinema é "entrar" no jogo do diretor e aceitar aquele universo apresentado como sendo real, mesmo que seja diferente do nosso universo.


Soldados também são seres humanos


O filme retrata a saga desses cinco soldados diante de uma guerra que não começaram, mas que tem a obrigação de terminar. O estado de anestesia diante da violência que os cerca é cada vez maior. A saída é destilar um enorme sarcasmo com tudo para conseguir suportar a situação.
Afinal de contas, como confidencia o narrador do filme, o lema desses homens é: "a verdadeira glória de uma guerra é sair vivo dela".
Isso fica evidente em uma conversa do sargento (preciso repetir: brilhantemente vivido por Lee Marvin) e um dos soldados, o atirador, vivido por Mark Hamill (o Luke Skywalker de Guerra nas Estrelas). O rapaz tem muito medo e não consegue matar ninguém "olho no olho". Ele afirma que não consegue assassinar ninguém, ao que o sargento corrige dizendo que "nós não assassinamos, nós matamos". O soldado tenta retrucar, mas o sargento confirma: "Nós não assassinamos animais, nós os matamos". Resume tudo.
Esse soldado passa praticamente o filme inteiro atirando somente em ações gerais, de longe. Mas quando ele encara as atrocidades cometidas nos campos de concentração de judeus, ele se rende a barbárie e perde completamente o medo de matar "olho no olho". 
Após encontrar os corpos ainda queimando nos fornos do campo, ele descobre um alemão escondido em outro forno, não utilizado. O alemão tenta atirar, mas a arma falha.
O soldado começa então a descarregar o seu fuzil no inimigo. Tiro após tiro, até as balas acabarem. Ele continua apertando o gatilho.
O sargento chega ao lado dele, entrega outro pente de balas e diz "Acho que você acertou ele, muito bem". É uma cena fantástica.


Crianças


Interessante observar o papel que as crianças desempenham no enredo do filme. Elas vão surgindo em todo lugar por onde passa o pelotão. Elas nascem sem a menor condição, elas estão sozinhas, elas morrem feridas ou de fome, elas enterram os seus mortos. Elas são as principais vítimas dessa e de todas as outras guerras.
Apesar dessa mensagem grave, o nascimento de uma criança, trás um dos momentos de alívio e de comédia para o filme. Além de mostrar que essa é a esperança de novos e melhores tempos.
O pelotão tem que ajudar no parto de uma mulher dentro de um tanque de guerra e ainda por cima sem conseguir se comunicar direito com a mulher.






A Guerra


O sarcasmo é despejado às toneladas sobre os procedimentos militares durante as batalhas. Dois deles merecem comentário.
O primeiro é sobre o procedimento para descobrir se o inimigo possui franco-atiradores. É muito fácil: mande alguém caminhar em espaço aberto. Se ele for atingido, é porque existem franco-atiradores !
O segundo acontece no desembarque na Normandia. Em meio a carnificina, eles estão tentando atacar atiradores alemães abrigados em casamatas. Para atingir o alvo, o soldado deve rastejar em direção aos tiros, em campo aberto, levando um artefato explosivo.
Para escolher a ordem dos que vão tentar chegar até lá, pegando o artefato no ponto onde o soldado anterior (morto é claro) deixou, é realizado um sorteio. Os soldados vão sendo eliminados um a um, com a torcida do próximo da lista para que consiga chegar até lá, senão ele será o próximo provável morto em combate.
É uma cena cruel, que mostra a desumanização por que passa o ser humano nessas situações limites. A torcida para que o colega chegue até os alemães tem pouquíssimo haver com amizade, mas sim, com a perspectiva de continuar vivo. Já foi dito que a única bandeira pela qual se luta numa guerra é a própria pele.
Outra brilhante definição de guerra é dada pelo sargento. Ele diz que a guerra é uma questão de papel e caneta, porque no momento em que a "paz" é assinada, os inimigos deixam de ser inimigos naquele exato momento !! Com certeza é uma das melhores definições da loucura que é uma guerra.
Além disso tudo, existe ainda um alemão que ao longo do filme tenta várias vezes matar o sargento, sem nunca obter sucesso. Mas, quando a guerra termina ele quase é morto pelo sargento que não sabia ainda sobre o final da guerra.
Esse é um fechamento perfeito do ciclo da estupidez humana, retratada nesta cena e na cena inicial, que mostra o sargento combatendo na Primeira Guerra Mundial e acabando de matar um alemão, sem saber que a guerra já havia terminado.


Outro destaque desse filme é o elenco (principalmente os cinco componentes do pelotão). Todos estão fantásticos, mas Lee Marvin está sensacional. Ele apresenta o seu personagem como aquele soldado durão, que já combateu uma guerra, já viu mais gente morta do que qualquer um a sua volta e que é sarcástico com tudo. Mas, ao mesmo tempo, em pequenos gestos, ele demonstra que por trás da máscara, existe um ser humano sensível a essa situação toda.
Duas cenas demonstram bem isso. A primeira quando recebe o capacete que uma menina enfeitou com flores. Ele o usa, mesmo se tornando um alvo fácil.
A segunda, aí num tom muito mais pesado, ao entrar no campo de concentração ele encontra um menino prisioneiro, que acaba morrendo em seus ombros (provavelmente de fome). Não é preciso mostrar nada, apenas o narrador nos informa que "levou horas para que o sargento se separasse do menino". Arrepiante e genial.
Segundo muitos críticos, Lee Marvin apresenta a melhor performance de sua carreira. Concordo.
Esse é um filme que merece ser visto como um excelente filme de guerra e como um filme que denuncia a estupidez de qualquer conflito armado. É a obra de alguém que vivenciou tudo aquilo e que tem um enorme talento para transformar essa experiência em arte.
Vejam só esse diálogo, que acontece ao marcharem pela França. Um soldado para ao lado de um monumento e diz: "Você viram como eles são rápidos para colocar os nomes de todos os nossos rapazes que foram mortos?".
O sargento responde: "Isso é um memorial da Primeira Guerra Mundial".
O soldado retruca: "Mas os nomes são os mesmos"
O sargento complementa: "Eles sempre são"
Que diálogo....


Cenas Inesquecíveis
  • O diálogo diante do memorial da Primeira Guerra Mundial.
  • A "chamada" para o próximo a levar o artefato explosivo no desembarque na Normandia. Cena cheia de tensão e que demonstra o quanto o ser humano é descartável nesse tipo de situação.
  • O parto dentro do tanque de guerra destruído. A anarquia completa da cena e a alegria em dar vida e não tirar.
  • A chegada ao campo de concentração e o encontro com o menino prisioneiro. É de arrepiar.
  • O soldado que descarrega a arma no alemão que se esconde no forno do campo de concentração. Impossível esquecer essa cena. Ela resume todo o processo de transformação pelo qual o soldado passa ao longo de uma guerra. Pode demorar, mas alguma coisa "quebra" dentro da pessoa e a raiva acaba explodindo com toda força.





Lord of the Reel










domingo, 13 de setembro de 2009

Afogando em Jogos



Afogando em Números (Drowning by Numbers) - 1988
Inglaterra / Holanda






Diretor - Peter Greenaway
Elenco - Joan Plowright, Juliet Stevenson, Joely Richardson, Bernard Hill, Jason Edwards, Bryan Pringle


Site: IMDB


Três mulheres - mãe, filha e neta - descontentes com os seus casamentos afogam os seus respectivos maridos, mas tem os seus crimes encobertos por um magistrado apaixonado pelas três mulheres. Mas, os crimes são descobertos e a única saída para os quatro é fugir em um bote, mas um deles não sabe nadar ...


Por que gostar desse filme?


Os grandes diretores imprimem suas "marcas" nos seus filmes, tornando-os inconfundíveis. Com certeza Peter Greenaway é um deles e Afogando em Números é um excelente exemplo disso.
A "marca" Peter Greenaway, algumas vezes, torna o filme um tanto difícil de acompanhar, mas é inegável que ele tem muito estilo. Não sou daqueles fãs de toda a obra desse diretor, mas alguns deles posso classificar como primorosos e entram, fácil, fácil, na minha lista de melhores que já assisti.
Greenaway além de cineasta é artista plástico e procura trazer para os seus filmes a experiência dele nessa arte. Alguns filmes funcionam como obras de vídeo-arte, principalmente na sua fase mais atual, onde ele procura apresentar uma mescla de meios para apresentar a mensagem do filme. Realmente, algumas vezes isso leva à saturação de símbolos, mas em outras ele acerta a mão e temos filmes muito interessantes.
Mesmo assim, nem sempre os símbolos são fáceis de decodificar.
Afogando em Números apresenta alguns elementos que podem ser encontrados em vários filmes do diretor:
  • Uso intensivo do jogo entre luz e sombra;
  • Composição das cenas como se fossem quadros (observe nesse filme a abundância de detalhes que podem ser vistos na maioria das cenas, é possível "pausar" o filme e ficar analisando a cena);
  • A magistral trilha sonora de Michael Nyman, colaborador constante do diretor;
  • A apresentação de corpos nús com uma naturalidade impressionante. Realmente o diretor não apresenta nenhum receio em apresentar as pessoas nuas em seus filmes. Não é exploração do nu de forma apelativa, mas sim, de nos fazer confrontar com algo absolutamente natural: por baixo de nossas roupas, todos estamos nús;
  • A recorrência de cenas apresentando matéria em decomposição. Podem ser frutas, animais mortos ou mesmo seres humanos. É a decomposição da sociedade.
Por tudo isso é possível perceber que entrar no mundo dos filmes de Greenaway não é uma tarefa fácil. É preciso estar preparado para saborear um prato requintado, mas com sabor diferente do que normalmente experimentamos. Concordo que não é saboroso sempre, mas com certeza é bem diferente. Sempre é uma experiência muito interessante.


Três Mulheres


O filme apresenta três gerações de mulheres de uma mesma família que possuem o mesmo nome (Cissie Colpitts), que compartilham o mesmo descontentamento com os seus casamentos e que lançam mão do mesmo expediente para resolver os seus problemas conjugais: o assassinato.
Em momento diferentes do enredo, elas matam seus maridos afogados (na banheira, na piscina e no mar).
Para que não sejam apanhadas pelas autoridades, se aproveitam da paixão que o magistrado local (que investiga os crimes) nutre pelas três e prometem favores sexuais em troca da impunidade. Promessas essas, que nunca são cumpridas!
Os homens desse filme são completamente subjugados por essas três mulheres. São pessoas sem nenhum brilho, completamente estúpidos. Quase somos levados a crer que mereceram o seu destino e quase começamos a torcer para que elas escapem impunes! Talvez a única exceção seja o magistrado. Não que seja brilhante, mas pelo menos conseguimos torcer por um destino melhor para ele...







Curiosidade: no papel do magistrado temos, bem mais novo, o ator Bernard Hill, que pode ser visto como o rei Theoden de O Senhor dos Anéis.


O magistrado encobre as evidências que incriminam as mulheres, mas sua situação vai se complicando cada vez mais, perante os moradores da região. Quando são desmascarados, o que acontece após um dos tantos jogos que são apresentados ao longo do filme, os quatro fogem para o mar, a bordo de um barco a remos. Mas o magistrado não sabe nadar ....


Jogos e mais Jogos





O aspecto mais interessante do filme é a questão dos jogos. Acredito mesmo, que o filme todo possa ser visto como um grande jogo, no qual somos convidados a assistir e até a participar.
Em primeiro lugar é entrar no jogo do cineasta e apreciar o apuro visual com que são apresentadas as cenas. Como já disse, a composição das cenas é algo realmente incrível, com vários detalhes a serem observados.
Em segundo lugar, existem os jogos que são apresentados no filme pelo filho do magistrado. Smut é fanático por jogos e vai nos apresentando os jogos mais estranhos que o cinema já mostrou (e acho que fora dele também).
Esses jogos apresentam ecos com o que acontece no enredo, em alguns casos, com papel fundamental para o enredo, como no caso dos dois jogos finais: o cabo de guerra entre os moradores da região e os "suspeitos" e o jogo final de Smut. Jogo final mesmo.
Além disso, o diretor nos convida a participar de um jogo também. Isso mesmo, nós espectadores também podemos jogar!
Ao longo do filme vão sendo apresentados números de 1 até 100 (na sequência). Mas esses números são apresentados nos lugares mais inusitados, inclusive em peixes que foram pescados!
Com o passar do tempo, começamos a nos preocupar em encontrar onde o número aparecerá. É muito interessante.
Com isso, o espectador vai acompanhando o desenvolvimento da história e percebendo quando ela está rumando para o final. Obviamente com o número 100 na tela e obviamente em uma cena que envolve, as três Cissies, o magistrado (que não sabe nadar), muita água, um barco com o número 100 estampado no casco e uma morte...
O filme mostra que na vida, como em um jogo, nem sempre quem merece ganhar é aquele que ganha. Pior, na vida normalmente os inocentes são aqueles que perdem. E nesse filme é exatamente isso que acontece.


Curiosidade: Na época do lançamento do filme, li em uma revista italiana que um dos números da sequência de 1 até 100 não é mostrado. Não me lembro qual é.


Vale a pena entrar nesses jogos e assistir a esse filme incrível. É um filme para ser, principalmente, visto e apreciado, como toda boa obra de arte visual.
Pena que ainda não tenha sido lançado no mercado de DVD.





Cenas Inesquecíveis

  • A princípio, qualquer cena do filme, pela qualidade da composição visual das mesmas. É um filme belíssimo, mesmo quando mostra morte e destruição.
  • A menina pulando corda e contando até cem (prenunciando o jogo com o espectador). Além de contar, a cada pulo ela diz o nome de uma estrela! O mais incrível é que não se percebem cortes nessa cena!!
  • O jogo do cabo de guerra quase no final do filme. É o "julgamento" dos suspeitos. O "sentença" depende do resultado do jogo.
  • O último jogo (literalmente) apresentado e jogado por Smut. Se não tiver nome, poderíamos chamar de "Jogo do Enforcado". Para se ter uma idéia, observe a descrição que Smut faz desse jogo: "O objetivo desse jogo é saltar com uma corda no pescoço de um local suficientemente alto, para enforcar-se ao cair. O objetivo desse jogo é punir aqueles que causaram grande infelicidade com suas ações egoístas. Esse é o melhor jogo de todos, porque o vencedor é também o perdedor, e a decisão do juiz não admite apelação." Uau ... precisa dizer mais alguma coisa?



Lord of the Reel

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ficção Científica com "F" Maiúsculo

2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey) - 1968
Inglaterra / EUA




Diretor: Stanley Kubrick
Elenco: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Douglas Rain


Sites: IMDB


O alvorecer na humanidade. Nossos ancestrais aprendem a usar ferramentas para caçar e se defender. Um misterioso monólito negro está presente. Em 2001, o misterioso monólito surge novamente na Lua e uma missão é enviada para Júpiter para verificar sinais enviados da Lua para aquele planeta, aparentemente pelo monólito. Durante a missão, o computador de bordo "enlouquece" e tenta eliminar toda a tripulação. Depois de conseguir sobreviver e desligar o computador, o astronauta entra em uma viagem para dimensões desconhecidas com resultados surpreendentes.


Por que gostar desse filme?


O filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, é um clássico do cinema. Um dos melhores filmes de todos os tempos, de um dos melhores diretores de todos os tempos: Stanley Kubrick. Com algumas das cenas mais antológicas (e conhecidas) da história do cinema, esse filme entra fácil em qualquer lista de melhores de todos os tempos. E com todo o mérito.
Apesar de um filme dito de "ficção científica", ele foge completamente dos clichês do gênero. Não vemos perseguições entre naves espaciais, chuvas de meteoritos, lutas com raio laser, etc. O ritmo do filme é lento, como o lento passar do tempo do Universo, se comparado com o nosso ritmo de tempo. Ele está muito mais preocupado em apresentar diversas questões filosóficas muito interessantes.
O filme apresenta inicialmente um bando de primatas que é rechaçado por outro bando, na disputa por água e que se esconde de seus predadores. Numa manhã, no entanto, tudo muda. O bando é surpreendido pela presença de um misterioso monólito negro, surgido não se sabe de onde. Todos ficam surpresos e com medo, mas um dos componentes do bando tem coragem de tocar o objeto misterioso.
Esse componente descobre o uso do osso como ferramenta de caça e de defesa. O bando agora domina a água, afugenta o outro bando, caça animais maiores e se defende dos seus predadores.
Em uma elipse de tempo, o filme salta para 2001, quando a humanidade viaja pelo espaço, para a Lua normalmente (como uma viagem de turismo pela PanAm, empresa aérea americana muito famosa na época do filme). Por sinal essa elipse temporal é mostrada com uma daquelas cenas antológicas do cinema.
Um cientista está indo à Lua para investigar algo que foi encontrado em uma escavação por lá. Ao chegar, vemos que é um monólito, como aquele dos nossos ancestrais. Descobre-se então que ele envia sinais para o planeta Júpiter e uma missão é enviada para lá.
Durante a viagem, na nave Discovery, a maioria da tripulação é mantida em animação suspensa, exceto dois astronautas (os doutores Dave Bowman e Frank Poole). Toda a nave é controlada pelo produto da última geração de computadores com inteligência artificial: o computador HAL 9000.
Durante a viagem, os astronautas percebem que o computador "falhou" em um diagnóstico de defeito em uma antena. Preocupados pensam em desligá-lo, mas o computador reage e "enlouquece", matando a todos que estão em hibernação e o Dr. Poole.
Ele tenta matar Bowman, deixando-o do lado de fora da nave, mas ele consegue entrar e desligar o computador (outra cena inesquecível).
Como a nave não pode se manter sozinha, Bowman ingressa em um módulo espacial e parte para o espaço, em direção ao desconhecido. Ao que parece uma dimensão diferente da nossa.
Ao chegar ao destino, Bowman se defronta com o que parece um quarto reservado para ele, mas onde a dimensão tempo não tem muito significado. Logo ele se encontra à beira da morte. Nesse momento, novamente o monólito negro está presente e uma nova criatura (com as feições de Bowman) surge: o "bebê estrela". Novamente a aurora, mas de uma "nova humanidade".


Obra de arte na acepção da palavra e filme enigma. Obra aberta a múltiplas interpretações, com inúmeros simbolismos e detalhes escondidos, pistas para a compreensão do enigma. O diretor mesmo afirma que esse filme foi feito para não apresentar conclusões ou explicações, mas sim para que cada pessoa que o assista tenha a sua própria interpretação. E são muitas interpretações diferentes. Um filme para atingir o sub-consciente do espectador.
Um aspecto interessante de ser observado é que a história original (por sinal, filmada) era sobre a ameaça que o planeta Terra estaria sofrendo em 2001. Um cinturão de armas nucleares na órbita do planeta, tensão entre as duas grandes potências (devemos lembrar que o filme foi feito no auge da Guerra Fria) e uma guerra mortal iminente. No final, o homem evolui para uma forma de vida superior e salva o planeta, inspirando a paz nos povos.
Após a filmagem, durante a montagem, Kubrick começou a cortar cenas que achava dispensáveis para a sua concepção do filme (principalmente aquelas contendo diálogos, pois o espaço é silencioso), chegando ao resultado final que vemos. O resultado é espetacular e confirma que o cinema é a arte da montagem.
Algumas interpretações possíveis das questões apresentadas pelo filme poderiam ser como as que apresento abaixo.


Despertar da Humanidade




Uma das questões principais tratadas pelo filme é a evolução do Homem.
No início é apresentada a pré-história e o salto evolutivo que representou o domínio das ferramentas, que permitiram a nossos ancestrais se defender de outros bandos e de animais selvagens e, ao mesmo tempo, caçar animais maiores. Isso levou ao desenvolvimento intelectual.
Em um salto temporal, o Homem agora domina as viagens espaciais e possui tecnologias muito avançadas. Na viagem para Júpiter, novamente o Homem evolui para uma nova forma de vida, algo superior, seremos seres cósmicos, nos desprendemos da Terra.
O filme mostra que em todos os momentos no qual o salto evolutivo acontece, estamos sendo acompanhados pelo misterioso monólito negro, supostamente vindo do espaço.
Seria esse monólito um sentinela, como me parece que era a idéia original da história? Estaria ele apenas aguardando os momentos dos saltos evolutivos para informar alguma inteligência superior? Ou o monólito seria o causador desses saltos evolutivos, aquilo que inspira, ou até mesmo que gera esse salto? Seria o criador? Por que então os sinais para Júpiter?
Isso fica por conta da interpretação pessoal de cada um. Tenho a minha e a apresento mais adiante.


Homem x Máquina


Outra questão fundamental do filme. O Homem criou as ferramentas. Desde o osso de nossos ancestrais, o Homem fez com as ferramentas evoluíssem para máquinas cada vez mais complexas, tornando-nos cada vez mais dependentes dessas nossas criações. No filme, o controle que o computador da nave tem sobre a vida dos tripulantes representa esse conceito de dependência.
O pior é que basta olharmos a nossa volta. O filme é profético e foi feito em 1968 !!!
A evolução das máquinas acontece até o momento em que o Homem tem de se confrontar com a sua própria criação, que não vai aceitar mais o controle dos humanos.
O embate ocorre exatamente na nave que ruma para Júpiter. O computador HAL 9000, a mais avançada máquina com inteligência artificial "erra". Começa a demonstrar sinais de humanidade e não aceita ser desligada por esse motivo.
Mais "humana" do que nunca, ela "enlouquece" e mata quase todos os astronautas. Mas, em uma cena sublime, tem a sua memória desligada e diz ao seu algoz que está com medo! Medo de perder as suas memórias, medo de morrer. E quem não teria?
Pode-se também dizer que a aproximação com Júpiter fez HAL perceber o que estaria para acontecer, afinal de contas ele era o cérebro eletrônico mais evoluído já construído. Sabendo disso, tem uma reação de preservação e tenta impedir que aconteça.
A velha idéia de que as máquinas vão acabar percebendo que somos dispensáveis e que elas podem muito bem viver sem nós. Como em outros filmes, como o Exterminador do Futuro e Matrix.
Mas é importante notar alguns detalhes que podem ser observados durante a missão para Júpiter. Os humanos da nave são frios, calmos, praticamente não mudam a entonação de voz, quase não sorriem. Não demonstram emoções. Estão se tornando como as máquinas que criaram.
Os papéis estão se invertendo e somente a evolução para uma forma de vida superior poderia nos tirar desse destino completamente desumanizado.
É interessante ainda como as máquinas do filme tem uma certa "aparência humana". As naves e módulos de vôo tem formas humanas. O módulo que chega à Lua parece uma cabeça com os olhos brilhantes, o módulo da nave ampara o astronauta morto nos braços e o deixa para o seu descanso no espaço e o "olho" do computador, que tudo vê.
Pode-se até perceber que a nave da missão tem a forma de um espermatozóide indo fecundar o óvulo (planeta Júpiter) para gerar a "nova raça".


Alguma polêmica sempre faz bem


Estendendo um pouco a idéia da evolução e da presença do monólito negro, é possível entender o que é apresentado como uma forma de conciliação entre as teorias da criação do Homem: o Evolucionismo e o Criacionismo da tradição judaico-cristã.
E o elemento conciliador é o próprio monólito negro.
Vamos analisar a partir do ponto onde o filme começa, pois nem me atrevo a tentar encontrar alguma coerência entre isso e a criação do Universo e tudo mais, por exemplo. Então vamos lá.
Os primatas estão no ponto onde estão prontos para realizar o salto evolutivo, mas falta um empurrão para que isso aconteça. Então o monólito negro está lá e dá o empurrão. Ele é o criador, figura perfeita, sem qualquer falha.
Dessa forma, a evolução, dentro do evolucionismo continuaria ser válida, mas aquele pequeno detalhe que determina o salto evolutivo, seria dado com a ajuda do criador (criacionismo).
É um tanto quanto estranho, mas bastante coerente com o que vemos no filme. Alguns poderiam questionar o porque de Júpiter. A pergunta deveria ser: e por que não? "Deus vive na lua de Júpiter", como apresenta a fraca continuação desse filme (2010 - O Ano que Faremos Contato).


Pequenos Grandes Detalhes


Não bastasse essas interpretações possíveis, e todas as outras que são formuladas desde que o filme foi lançado, Kubrick ainda colocou inúmeros simbolismos dentro do filme. Aí vão alguns.


Na foto abaixo, o monólito é apresentado em conjunto com o Sol e com a Lua. Para o Zoroastrismo (antiga religião persa criada por Zaratustra), isso significa o embate entre o bem e o mal. Daí a utilização do tema Assim Falava Zaratustra para o aparecimento do monólito.




O próprio nome do computador é um enigma criado para a época do filme. Se pegarmos a próxima letra do alfabeto, correspondente a cada letra do nome do computador, HAL, teremos .... IBM !!! Pois na época a gigante era o grande símbolo da computação para o mundo.


E se prestarmos atenção existem muito mais.


Não bastasse a qualidade do roteiro, da direção, da fotografia, da música, etc., o cuidado técnico e científico é primoroso também: o som que não se propaga no espaço, a nave que gira para manter a impressão de gravidade, as pessoas que podem ficar em qualquer posição, pois não existe o conceito de "para cima" ou "para baixo" no espaço, os monitores da naves com tela plana (que só viriam a ser realidade há apenas alguns anos atrás), o atraso nas transmissões de longuíssimas distâncias espaciais, etc.
Apesar de tudo isso, é curioso observar também como imaginavam que seria o nosso dia-a-dia em 2001. Nada mais diferente, mesmo assim isso pode ser usado para que possamos perceber o quão errado devem ser as nossas previsões sobre o futuro!
Com certeza um filme para se ver e rever, pois sempre existem os pequenos detalhes que passaram despercebidos. E isso também ajuda a demonstrar porque é um dos maiores filmes de todos os tempos.




Cenas Inesquecíveis


Aqui estão apenas algumas, porque seria muito extensa a lista de todas.

  • Na pré-história o primata utiliza a sua nova "ferramenta", um osso de animal, e depois a atira para o alto. Num efeito de montagem, o osso "se transforma" em outra ferramenta, uma nave no espaço. Da ferramenta pré-histórica para a ferramenta do século XXI, em uma cena antológica, considerada a maior e mais bem bolada elipse temporal da história do cinema. Incrível.
  • O balé das naves espaciais ao som da valsa Danúbio Azul. O movimento lento, tanto das naves, como das pessoas a bordo, é algo inesquecível. São cenas plasticamente belíssimas, além de beirarem a perfeição em termos de Física.
  • Todos os encontros com o monólito negro. As cenas transpiram mistério e suspense, com a música exercendo papel fundamental nisso. Nunca sabemos o que vai acontecer, sempre estamos esperando que algo extraordinário vá acontecer. Não acontece. Ou melhor ainda, acontece algo de muito extraordinário, mas não é necessária nenhuma pirotecnia para mostra isso. Coisa de gênio mesmo.
  • O computador HAL "lendo os lábios" dos astronautas enquanto eles discutem o que fazer com ele.
  • HAL sendo desligado e dizendo que está com medo e que sua mente está indo embora (é uma cena de arrepiar, volte e assista novamente, ela merece). O computador vai "morrendo" lentamente, a "mente" do computador começa a regredir, até que canta uma canção para o seu algoz, como um velho senil! Como conseguir que uma máquina pareça tão "humana" na hora da "morte" !!!
O site abaixo é extremamente interessante. Ele apresenta uma interpretação bastante interessante sobre as questões levantadas pelo filme. É uma animação em Flash muito boa mesmo e vale a pena ser assistida (possui versão em português).


Lord of the Reel