Agonia e Glória (The Big Red One) - 1980
EUA
Diretor: Samuel Fuller
Elenco: Lee Marvin, Robert Carradine, Mark Hamill, Bobby Di Cicco, Kelly Ward, Stéphane Audran
Site: IMDB
O filme acompanha a história do primeiro batalhão de infantaria do exército americano (o "Big Red One" do título original), ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial. Na verdade, é a história de um sargento (vivido de forma brilhante por Lee Marvin) e mais quatro soldados. Aqueles que sobrevivem à guerra, pois esse pelotão é sempre o primeiro a chegar nas investidas dos Aliados e os soldados novos vão morrendo, uns após os outros.
Por que gostar desse filme?
Agonia e Glória é um dos melhores filmes de guerras já apresentados no cinema, além de apresentar como diretor Samuel Fuller, um dos diretores americanos mais reconhecidos pela crítica.
Esse filme apresenta uma visão muito particular e dura sobre a Segunda Guerra (e por consequência de todas as guerras) e a reação dos soldados a ela. Os diálogos desse filme são um show à parte. Constituem algumas das frases mais contundentes contra a ignorância das guerras. O próprio diretor lutou na Segunda Guerra e muito da sua experiência nela está nesse filme.
O filme focaliza a jornada de cinco soldados, em um batalhão que passa por muitos acontecimentos importantes da Segunda Guerra Mundial. Eles começam no norte da África, combatendo divisões alemãs de tanques, vão para a Sicília (invasão da Itália), desembarcam na Normandia no dia D e continuam França adentro e chegam na Bélgica. São obrigados a recuar. Avançam novamente, e finalmente chegam à antiga Tchecoslováquia, onde são os primeiros a entrar em um campo de concentração de judeus.O batalhão vai recebendo e perdendo soldados ao longo da guerra e os cinco vão sobrevivendo. Os mortos são sempre substituídos por mais soldados para serem mortos também. A guerra é um verdadeiro moedor de carnes.
Alguns detalhes sintetizam esse conceito, como por exemplo, a cena na qual o narrador (alter ego do diretor, sempre com seu charuto e vivido por Robert Carradine) comenta que os cinco procuram não conhecer os novos soldados que vão chegando. Praticamente não há tempo para isso, logo estarão mortos.
Realismo
É impossível comparar o realismo das cenas de batalha de filmes como O Resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg) com as cenas desse filme. O filme de Fuller sairia perdendo feio.
Mas esse detalhe não é importante para o filme. O diretor consegue passar todo o mal estar, toda estupidez da guerra sem utilizar cenas completamente realistas, com muito sangue e corpos retalhados.
É muito curioso observar como as pessoas possuem visões diferentes de um mesmo filme. Ainda bem, porque isso é o que torna o cinema uma arte tão fascinante.
Nesse filme, algumas pessoas se concentraram em observar as falhas em retratar com realismo as batalhas, como por exemplo, que os tanques alemães não eram na realidade tanques alemães e que as armas não deveriam disparar tantos tiros.
Na minha opinião, uma grande besteira diante da grandeza da mensagem anti-guerra e humanista do filme, da direção maravilhosa e das atuações do elenco. São exatamente essas "imperfeições" que tornam esse filme muito mais humano.
Essa sempre é a minha opinião. Certa vez, ouvi uma conversa muito interessante, em uma fila de espera para assistir um filme. A conversa sintetiza como sinto o cinema. Duas pessoas conversavam sobre um filme de Fellini, quando uma dela disse que se ele colocasse uma parede branca e dissesse que era um navio, quem estivesse assistindo acreditaria que era um navio mesmo (veja E la Nave Va, e entenda o que estavam dizendo).
Cinema é "entrar" no jogo do diretor e aceitar aquele universo apresentado como sendo real, mesmo que seja diferente do nosso universo.
Soldados também são seres humanos
O filme retrata a saga desses cinco soldados diante de uma guerra que não começaram, mas que tem a obrigação de terminar. O estado de anestesia diante da violência que os cerca é cada vez maior. A saída é destilar um enorme sarcasmo com tudo para conseguir suportar a situação.
Afinal de contas, como confidencia o narrador do filme, o lema desses homens é: "a verdadeira glória de uma guerra é sair vivo dela".
Isso fica evidente em uma conversa do sargento (preciso repetir: brilhantemente vivido por Lee Marvin) e um dos soldados, o atirador, vivido por Mark Hamill (o Luke Skywalker de Guerra nas Estrelas). O rapaz tem muito medo e não consegue matar ninguém "olho no olho". Ele afirma que não consegue assassinar ninguém, ao que o sargento corrige dizendo que "nós não assassinamos, nós matamos". O soldado tenta retrucar, mas o sargento confirma: "Nós não assassinamos animais, nós os matamos". Resume tudo.
Esse soldado passa praticamente o filme inteiro atirando somente em ações gerais, de longe. Mas quando ele encara as atrocidades cometidas nos campos de concentração de judeus, ele se rende a barbárie e perde completamente o medo de matar "olho no olho".
Após encontrar os corpos ainda queimando nos fornos do campo, ele descobre um alemão escondido em outro forno, não utilizado. O alemão tenta atirar, mas a arma falha.
O soldado começa então a descarregar o seu fuzil no inimigo. Tiro após tiro, até as balas acabarem. Ele continua apertando o gatilho.
O sargento chega ao lado dele, entrega outro pente de balas e diz "Acho que você acertou ele, muito bem". É uma cena fantástica.
Crianças
Interessante observar o papel que as crianças desempenham no enredo do filme. Elas vão surgindo em todo lugar por onde passa o pelotão. Elas nascem sem a menor condição, elas estão sozinhas, elas morrem feridas ou de fome, elas enterram os seus mortos. Elas são as principais vítimas dessa e de todas as outras guerras.
Apesar dessa mensagem grave, o nascimento de uma criança, trás um dos momentos de alívio e de comédia para o filme. Além de mostrar que essa é a esperança de novos e melhores tempos.
O pelotão tem que ajudar no parto de uma mulher dentro de um tanque de guerra e ainda por cima sem conseguir se comunicar direito com a mulher.
A Guerra
O sarcasmo é despejado às toneladas sobre os procedimentos militares durante as batalhas. Dois deles merecem comentário.
O primeiro é sobre o procedimento para descobrir se o inimigo possui franco-atiradores. É muito fácil: mande alguém caminhar em espaço aberto. Se ele for atingido, é porque existem franco-atiradores !
O segundo acontece no desembarque na Normandia. Em meio a carnificina, eles estão tentando atacar atiradores alemães abrigados em casamatas. Para atingir o alvo, o soldado deve rastejar em direção aos tiros, em campo aberto, levando um artefato explosivo.
Para escolher a ordem dos que vão tentar chegar até lá, pegando o artefato no ponto onde o soldado anterior (morto é claro) deixou, é realizado um sorteio. Os soldados vão sendo eliminados um a um, com a torcida do próximo da lista para que consiga chegar até lá, senão ele será o próximo provável morto em combate.
É uma cena cruel, que mostra a desumanização por que passa o ser humano nessas situações limites. A torcida para que o colega chegue até os alemães tem pouquíssimo haver com amizade, mas sim, com a perspectiva de continuar vivo. Já foi dito que a única bandeira pela qual se luta numa guerra é a própria pele.
Outra brilhante definição de guerra é dada pelo sargento. Ele diz que a guerra é uma questão de papel e caneta, porque no momento em que a "paz" é assinada, os inimigos deixam de ser inimigos naquele exato momento !! Com certeza é uma das melhores definições da loucura que é uma guerra.
Além disso tudo, existe ainda um alemão que ao longo do filme tenta várias vezes matar o sargento, sem nunca obter sucesso. Mas, quando a guerra termina ele quase é morto pelo sargento que não sabia ainda sobre o final da guerra.
Esse é um fechamento perfeito do ciclo da estupidez humana, retratada nesta cena e na cena inicial, que mostra o sargento combatendo na Primeira Guerra Mundial e acabando de matar um alemão, sem saber que a guerra já havia terminado.
Outro destaque desse filme é o elenco (principalmente os cinco componentes do pelotão). Todos estão fantásticos, mas Lee Marvin está sensacional. Ele apresenta o seu personagem como aquele soldado durão, que já combateu uma guerra, já viu mais gente morta do que qualquer um a sua volta e que é sarcástico com tudo. Mas, ao mesmo tempo, em pequenos gestos, ele demonstra que por trás da máscara, existe um ser humano sensível a essa situação toda.
Duas cenas demonstram bem isso. A primeira quando recebe o capacete que uma menina enfeitou com flores. Ele o usa, mesmo se tornando um alvo fácil.
A segunda, aí num tom muito mais pesado, ao entrar no campo de concentração ele encontra um menino prisioneiro, que acaba morrendo em seus ombros (provavelmente de fome). Não é preciso mostrar nada, apenas o narrador nos informa que "levou horas para que o sargento se separasse do menino". Arrepiante e genial.
Segundo muitos críticos, Lee Marvin apresenta a melhor performance de sua carreira. Concordo.
Esse é um filme que merece ser visto como um excelente filme de guerra e como um filme que denuncia a estupidez de qualquer conflito armado. É a obra de alguém que vivenciou tudo aquilo e que tem um enorme talento para transformar essa experiência em arte.
Vejam só esse diálogo, que acontece ao marcharem pela França. Um soldado para ao lado de um monumento e diz: "Você viram como eles são rápidos para colocar os nomes de todos os nossos rapazes que foram mortos?".
O sargento responde: "Isso é um memorial da Primeira Guerra Mundial".
O soldado retruca: "Mas os nomes são os mesmos"
O sargento complementa: "Eles sempre são"
Que diálogo....
Cenas Inesquecíveis
- O diálogo diante do memorial da Primeira Guerra Mundial.
- A "chamada" para o próximo a levar o artefato explosivo no desembarque na Normandia. Cena cheia de tensão e que demonstra o quanto o ser humano é descartável nesse tipo de situação.
- O parto dentro do tanque de guerra destruído. A anarquia completa da cena e a alegria em dar vida e não tirar.
- A chegada ao campo de concentração e o encontro com o menino prisioneiro. É de arrepiar.
- O soldado que descarrega a arma no alemão que se esconde no forno do campo de concentração. Impossível esquecer essa cena. Ela resume todo o processo de transformação pelo qual o soldado passa ao longo de uma guerra. Pode demorar, mas alguma coisa "quebra" dentro da pessoa e a raiva acaba explodindo com toda força.
Lord of the Reel



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