Inglaterra / EUA
Diretor: Stanley Kubrick
Elenco: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Douglas Rain
Sites: IMDB
O alvorecer na humanidade. Nossos ancestrais aprendem a usar ferramentas para caçar e se defender. Um misterioso monólito negro está presente. Em 2001, o misterioso monólito surge novamente na Lua e uma missão é enviada para Júpiter para verificar sinais enviados da Lua para aquele planeta, aparentemente pelo monólito. Durante a missão, o computador de bordo "enlouquece" e tenta eliminar toda a tripulação. Depois de conseguir sobreviver e desligar o computador, o astronauta entra em uma viagem para dimensões desconhecidas com resultados surpreendentes.
Por que gostar desse filme?
O filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, é um clássico do cinema. Um dos melhores filmes de todos os tempos, de um dos melhores diretores de todos os tempos: Stanley Kubrick. Com algumas das cenas mais antológicas (e conhecidas) da história do cinema, esse filme entra fácil em qualquer lista de melhores de todos os tempos. E com todo o mérito.
Apesar de um filme dito de "ficção científica", ele foge completamente dos clichês do gênero. Não vemos perseguições entre naves espaciais, chuvas de meteoritos, lutas com raio laser, etc. O ritmo do filme é lento, como o lento passar do tempo do Universo, se comparado com o nosso ritmo de tempo. Ele está muito mais preocupado em apresentar diversas questões filosóficas muito interessantes.
O filme apresenta inicialmente um bando de primatas que é rechaçado por outro bando, na disputa por água e que se esconde de seus predadores. Numa manhã, no entanto, tudo muda. O bando é surpreendido pela presença de um misterioso monólito negro, surgido não se sabe de onde. Todos ficam surpresos e com medo, mas um dos componentes do bando tem coragem de tocar o objeto misterioso.
Esse componente descobre o uso do osso como ferramenta de caça e de defesa. O bando agora domina a água, afugenta o outro bando, caça animais maiores e se defende dos seus predadores.
Em uma elipse de tempo, o filme salta para 2001, quando a humanidade viaja pelo espaço, para a Lua normalmente (como uma viagem de turismo pela PanAm, empresa aérea americana muito famosa na época do filme). Por sinal essa elipse temporal é mostrada com uma daquelas cenas antológicas do cinema.
Um cientista está indo à Lua para investigar algo que foi encontrado em uma escavação por lá. Ao chegar, vemos que é um monólito, como aquele dos nossos ancestrais. Descobre-se então que ele envia sinais para o planeta Júpiter e uma missão é enviada para lá.
Durante a viagem, na nave Discovery, a maioria da tripulação é mantida em animação suspensa, exceto dois astronautas (os doutores Dave Bowman e Frank Poole). Toda a nave é controlada pelo produto da última geração de computadores com inteligência artificial: o computador HAL 9000.
Durante a viagem, os astronautas percebem que o computador "falhou" em um diagnóstico de defeito em uma antena. Preocupados pensam em desligá-lo, mas o computador reage e "enlouquece", matando a todos que estão em hibernação e o Dr. Poole.
Ele tenta matar Bowman, deixando-o do lado de fora da nave, mas ele consegue entrar e desligar o computador (outra cena inesquecível).
Como a nave não pode se manter sozinha, Bowman ingressa em um módulo espacial e parte para o espaço, em direção ao desconhecido. Ao que parece uma dimensão diferente da nossa.
Ao chegar ao destino, Bowman se defronta com o que parece um quarto reservado para ele, mas onde a dimensão tempo não tem muito significado. Logo ele se encontra à beira da morte. Nesse momento, novamente o monólito negro está presente e uma nova criatura (com as feições de Bowman) surge: o "bebê estrela". Novamente a aurora, mas de uma "nova humanidade".
Obra de arte na acepção da palavra e filme enigma. Obra aberta a múltiplas interpretações, com inúmeros simbolismos e detalhes escondidos, pistas para a compreensão do enigma. O diretor mesmo afirma que esse filme foi feito para não apresentar conclusões ou explicações, mas sim para que cada pessoa que o assista tenha a sua própria interpretação. E são muitas interpretações diferentes. Um filme para atingir o sub-consciente do espectador.
Um aspecto interessante de ser observado é que a história original (por sinal, filmada) era sobre a ameaça que o planeta Terra estaria sofrendo em 2001. Um cinturão de armas nucleares na órbita do planeta, tensão entre as duas grandes potências (devemos lembrar que o filme foi feito no auge da Guerra Fria) e uma guerra mortal iminente. No final, o homem evolui para uma forma de vida superior e salva o planeta, inspirando a paz nos povos.
Após a filmagem, durante a montagem, Kubrick começou a cortar cenas que achava dispensáveis para a sua concepção do filme (principalmente aquelas contendo diálogos, pois o espaço é silencioso), chegando ao resultado final que vemos. O resultado é espetacular e confirma que o cinema é a arte da montagem.
Algumas interpretações possíveis das questões apresentadas pelo filme poderiam ser como as que apresento abaixo.
Despertar da Humanidade
Uma das questões principais tratadas pelo filme é a evolução do Homem.
No início é apresentada a pré-história e o salto evolutivo que representou o domínio das ferramentas, que permitiram a nossos ancestrais se defender de outros bandos e de animais selvagens e, ao mesmo tempo, caçar animais maiores. Isso levou ao desenvolvimento intelectual.
Em um salto temporal, o Homem agora domina as viagens espaciais e possui tecnologias muito avançadas. Na viagem para Júpiter, novamente o Homem evolui para uma nova forma de vida, algo superior, seremos seres cósmicos, nos desprendemos da Terra.
O filme mostra que em todos os momentos no qual o salto evolutivo acontece, estamos sendo acompanhados pelo misterioso monólito negro, supostamente vindo do espaço.
Seria esse monólito um sentinela, como me parece que era a idéia original da história? Estaria ele apenas aguardando os momentos dos saltos evolutivos para informar alguma inteligência superior? Ou o monólito seria o causador desses saltos evolutivos, aquilo que inspira, ou até mesmo que gera esse salto? Seria o criador? Por que então os sinais para Júpiter?
Isso fica por conta da interpretação pessoal de cada um. Tenho a minha e a apresento mais adiante.
Homem x Máquina
Outra questão fundamental do filme. O Homem criou as ferramentas. Desde o osso de nossos ancestrais, o Homem fez com as ferramentas evoluíssem para máquinas cada vez mais complexas, tornando-nos cada vez mais dependentes dessas nossas criações. No filme, o controle que o computador da nave tem sobre a vida dos tripulantes representa esse conceito de dependência.
O pior é que basta olharmos a nossa volta. O filme é profético e foi feito em 1968 !!!
A evolução das máquinas acontece até o momento em que o Homem tem de se confrontar com a sua própria criação, que não vai aceitar mais o controle dos humanos.
O embate ocorre exatamente na nave que ruma para Júpiter. O computador HAL 9000, a mais avançada máquina com inteligência artificial "erra". Começa a demonstrar sinais de humanidade e não aceita ser desligada por esse motivo.
Mais "humana" do que nunca, ela "enlouquece" e mata quase todos os astronautas. Mas, em uma cena sublime, tem a sua memória desligada e diz ao seu algoz que está com medo! Medo de perder as suas memórias, medo de morrer. E quem não teria?
Pode-se também dizer que a aproximação com Júpiter fez HAL perceber o que estaria para acontecer, afinal de contas ele era o cérebro eletrônico mais evoluído já construído. Sabendo disso, tem uma reação de preservação e tenta impedir que aconteça.
A velha idéia de que as máquinas vão acabar percebendo que somos dispensáveis e que elas podem muito bem viver sem nós. Como em outros filmes, como o Exterminador do Futuro e Matrix.
Mas é importante notar alguns detalhes que podem ser observados durante a missão para Júpiter. Os humanos da nave são frios, calmos, praticamente não mudam a entonação de voz, quase não sorriem. Não demonstram emoções. Estão se tornando como as máquinas que criaram.
Os papéis estão se invertendo e somente a evolução para uma forma de vida superior poderia nos tirar desse destino completamente desumanizado.
É interessante ainda como as máquinas do filme tem uma certa "aparência humana". As naves e módulos de vôo tem formas humanas. O módulo que chega à Lua parece uma cabeça com os olhos brilhantes, o módulo da nave ampara o astronauta morto nos braços e o deixa para o seu descanso no espaço e o "olho" do computador, que tudo vê.
Pode-se até perceber que a nave da missão tem a forma de um espermatozóide indo fecundar o óvulo (planeta Júpiter) para gerar a "nova raça".
Alguma polêmica sempre faz bem
Estendendo um pouco a idéia da evolução e da presença do monólito negro, é possível entender o que é apresentado como uma forma de conciliação entre as teorias da criação do Homem: o Evolucionismo e o Criacionismo da tradição judaico-cristã.
E o elemento conciliador é o próprio monólito negro.
Vamos analisar a partir do ponto onde o filme começa, pois nem me atrevo a tentar encontrar alguma coerência entre isso e a criação do Universo e tudo mais, por exemplo. Então vamos lá.
Os primatas estão no ponto onde estão prontos para realizar o salto evolutivo, mas falta um empurrão para que isso aconteça. Então o monólito negro está lá e dá o empurrão. Ele é o criador, figura perfeita, sem qualquer falha.
Dessa forma, a evolução, dentro do evolucionismo continuaria ser válida, mas aquele pequeno detalhe que determina o salto evolutivo, seria dado com a ajuda do criador (criacionismo).
É um tanto quanto estranho, mas bastante coerente com o que vemos no filme. Alguns poderiam questionar o porque de Júpiter. A pergunta deveria ser: e por que não? "Deus vive na lua de Júpiter", como apresenta a fraca continuação desse filme (2010 - O Ano que Faremos Contato).
Pequenos Grandes Detalhes
Não bastasse essas interpretações possíveis, e todas as outras que são formuladas desde que o filme foi lançado, Kubrick ainda colocou inúmeros simbolismos dentro do filme. Aí vão alguns.
Na foto abaixo, o monólito é apresentado em conjunto com o Sol e com a Lua. Para o Zoroastrismo (antiga religião persa criada por Zaratustra), isso significa o embate entre o bem e o mal. Daí a utilização do tema Assim Falava Zaratustra para o aparecimento do monólito.
O próprio nome do computador é um enigma criado para a época do filme. Se pegarmos a próxima letra do alfabeto, correspondente a cada letra do nome do computador, HAL, teremos .... IBM !!! Pois na época a gigante era o grande símbolo da computação para o mundo.
E se prestarmos atenção existem muito mais.
Não bastasse a qualidade do roteiro, da direção, da fotografia, da música, etc., o cuidado técnico e científico é primoroso também: o som que não se propaga no espaço, a nave que gira para manter a impressão de gravidade, as pessoas que podem ficar em qualquer posição, pois não existe o conceito de "para cima" ou "para baixo" no espaço, os monitores da naves com tela plana (que só viriam a ser realidade há apenas alguns anos atrás), o atraso nas transmissões de longuíssimas distâncias espaciais, etc.
Apesar de tudo isso, é curioso observar também como imaginavam que seria o nosso dia-a-dia em 2001. Nada mais diferente, mesmo assim isso pode ser usado para que possamos perceber o quão errado devem ser as nossas previsões sobre o futuro!
Com certeza um filme para se ver e rever, pois sempre existem os pequenos detalhes que passaram despercebidos. E isso também ajuda a demonstrar porque é um dos maiores filmes de todos os tempos.
Cenas Inesquecíveis
Aqui estão apenas algumas, porque seria muito extensa a lista de todas.
- Na pré-história o primata utiliza a sua nova "ferramenta", um osso de animal, e depois a atira para o alto. Num efeito de montagem, o osso "se transforma" em outra ferramenta, uma nave no espaço. Da ferramenta pré-histórica para a ferramenta do século XXI, em uma cena antológica, considerada a maior e mais bem bolada elipse temporal da história do cinema. Incrível.
- O balé das naves espaciais ao som da valsa Danúbio Azul. O movimento lento, tanto das naves, como das pessoas a bordo, é algo inesquecível. São cenas plasticamente belíssimas, além de beirarem a perfeição em termos de Física.
- Todos os encontros com o monólito negro. As cenas transpiram mistério e suspense, com a música exercendo papel fundamental nisso. Nunca sabemos o que vai acontecer, sempre estamos esperando que algo extraordinário vá acontecer. Não acontece. Ou melhor ainda, acontece algo de muito extraordinário, mas não é necessária nenhuma pirotecnia para mostra isso. Coisa de gênio mesmo.
- O computador HAL "lendo os lábios" dos astronautas enquanto eles discutem o que fazer com ele.
- HAL sendo desligado e dizendo que está com medo e que sua mente está indo embora (é uma cena de arrepiar, volte e assista novamente, ela merece). O computador vai "morrendo" lentamente, a "mente" do computador começa a regredir, até que canta uma canção para o seu algoz, como um velho senil! Como conseguir que uma máquina pareça tão "humana" na hora da "morte" !!!
O site abaixo é extremamente interessante. Ele apresenta uma interpretação bastante interessante sobre as questões levantadas pelo filme. É uma animação em Flash muito boa mesmo e vale a pena ser assistida (possui versão em português).
Lord of the Reel




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