domingo, 23 de agosto de 2009

Cinema à Flor da Pele

Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa) - 2000
(Hong Kong / França)
Diretor - Wong Kar-Wai
Elenco - Maggie Cheung, Tony Leung, Rebecca Pan, Siu Ping Lam

Casal de vizinhos se aproxima e se apaixona enquanto os respectivos cônjuges têm um caso. Mas, apesar dos sentimentos dos dois, o relacionamento termina com a separação do casal.


Sites: Site Oficial / IMDB


Por que gostar desse filme?

A sinopse do filme nos engana, levando a crer em mais um daqueles filmes açucarados com final choroso.

Na verdade, Amor à Flor da Pele não deixa de ser um filme romântico, principalmente focado no medo de ser feliz.

O diretor, Wong Kar-Wai, realizou um filme primoroso que deve ser assistido atento aos pequenos detalhes.

As imagens são lindas (adoro até aquelas cenas em câmera lenta que a crítica gosta de ironizar chamando de "maneirismo" do diretor), a música é envolvente (a trilha sonora é incrível e é impossível sair do filme sem ter na cabeça a música "Quizás, Quizás, Quizás" cantada por Nat King Cole), os figurinos e a ambientação são excelentes (reprodução dos anos 60).

Além de tudo isso, o filme possui dois trunfos importantes: a história, e como ela é contada, e as interpretações.

O rítmo do filme é lento, denotando a passagem de tempo para o casal e, como o próprio enredo, vamos sendo seduzidos lentamente pela história.

A história começa em 1962, quando dois casais se mudam para quartos de aluguel vizinhos. Somente notamos a presença do marido de um dos casais (o Sr. Chow, interpretado por Tony Leung) e da esposa do outro casal (a Sra. Chan, vivida por Maggie Cheung), pois os outros dois cônjuges estão sempre trabalhando ou viajando.

Na verdade, o que os dois descobrem é que os respectivos cônjuges "ocultos" estão tendo um caso, um com o outro. Isso acaba aproximando os dois, que começam a se encontrar para simular o que vão dizer quando revelarem o que sabem sobre o adultério.

Com o tempo, os dois continuam se encontrando. A Sra. Chan auxilia o Sr. Chow a escrever histórias de samurai para o jornal no qual ele trabalha. Como era de se esperar, eles vão cada vez mais necessitando desses encontros, mas isso começa a causar um certo "mal estar" nos vizinhos.

Então eles começam a se encontrar em um hotel, no quarto 2046. Com o passar do tempo, a paixão cresce, mas os receios da Sra. Chan em contrariar as convenções sociais da época e o medo de se magoar novamente, leva a separação do casal e a desilusão amorosa novamente.


Mas, o que tem de diferente esse filme, com um enredo já utilizado em dezenas de outros filmes?

É aí que se percebe a não do diretor do filme. E que mão!

O modo como ele apresenta esse amor crescendo entre essas duas pessoas. Não como aquelas paixões arrebatadoras, que levam os personagens a cometer loucuras, mas gradativamente. Primeiramente, os personagens estão a procura de algo no que se agarrar, depois que ficam desnorteados com a notícia do adultério. Nesse momento, o que encontram: um ao outro. Depois eles vão se conhecendo e a coisa acontece naturalmente.

Mas, o aspecto mais importante é a forma como os sentimentos desses personagens são apresentados. Praticamente não se declaram, praticamente não se tocam, mas existe uma "eletricidade" entre eles, uma tensão que está prestes à explodir. Mas não explode, principalmente pelo medo de ambos em errar e sofrer novamente.

Tudo isso é filmado de uma forma elegante, suave e contagiante.

O ápice da desilusão de ambos acontece quatro anos após a separação, quando o Sr. Chow, já separado da esposa, está trabalhando em Cingapura, com certeza tentando esquecer as suas duas desilusões. Lá, ele realiza o antigo ritual, no qual um segredo é sussurrado no buraco de uma árvore e depois coberto com lama, para que o segredo fique guardado lá. É uma cena fantástica, porque não ouvimos qual é o segredo, mas a cena parece "gritar" qual é. Todos sabemos qual é.

E enquanto ele está fora do hotel em Cingapura, ela entra no quarto dele e o que vemos não deixa dúvidas de que a paixão ainda está acesa, mas falta coragem.

O outro grande trunfo do filme é a atuação dos atores principais. Tony Leung e Maggie Cheung interpretam seus personagens de forma magnífica. Os personagens são pessoas retraídas e com enorme medo de errar novamente. A atuação contida de ambos demonstra isso claramente e faz com que torçamos para que tudo dê certo entre eles. É criada uma empatia direta entre eles e quem assiste ao filme.

Amor à Flor da Pele é a história de duas vidas que se cruzam em um momento de dor para ambos e que poderia ter um final feliz, mas que o medo de sofrer outra desilusão amorosa, de forma irônica, faz com que acabem realmente sofrendo novamente.

Curiosidades
  • A cônjuge de Tony Leung, que não vemos o rosto tem a voz, e em alguns momentos é vivido por Maggie Cheung e o cônjuge dela, é vivido por Tony Leung.
  • O quarto do hotel, onde eles se encontram para escrever as histórias do jornal, e onde tiveram os seus momentos mais felizes, tem o número 2046, ano no qual Hong Kong será devolvida ao governo chinês definitivamente.


Cenas Inesquecíveis
  • As cenas onde a Sra. Chan vai buscar comida no restaurante, e começa a cruzar com o Sr. Chow. É um balé que traduz a força de atração entre ambos.
  • O casal no taxi (cena acima), voltando para casa. As mãos que se encontram e ela deitando no ombro dele. Essa cena é muito mais sensual que a grande maioria das cenas de sexo que encontramos por aí. Cena de uma delicadeza enorme, que mostra o nível do trabalho do diretor.
  • O Sr. Chow sussurrando o seu "segredo" no buraco da árvore.
Assista ao trailer do filme:


O filme tem uma "continuação": 2046 - Os Segredos do Amor. Outra obra incrível do mesmo diretor, que comentarei em outra oportunidade.

Lord of the Reel

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